Chef ou Como um bundão vira homem com a ajuda de mulheres mágicas

o filme Chef virou queridinho no verão norte-americano: escrito, dirigido e estrelado pelo Jon Favreau, ele conta a história de um chef de cozinha de um restaurante francês que larga o emprego maçante fazendo comida sem graça e abre um food truck para fazer a comida que ele quer na companhia de um cozinheiro amigo e o filho de dez anos. é um filme fofo, divertido, com uma trilha sonora impecável e comidas absurdamente apetitosas.

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OLAR

mas aí eu começo a pensar demais. o Carl é um chef de  cozinha fodão que trabalha há muitos anos sendo infeliz em um restaurante francês, fazendo comida clássica e sem nenhuma liberdade. ele não tem tempo nem responsabilidade com o filho de dez anos, mas magicamente nem o filho nem a ex esposa ficam minimamente chateados com isso. a ex esposa Inez (Sofia Vergara) já está divorciada dele há tempos, mas continua acompanhando o que ele faz, dando apoio, conselhos e ajudando para que ele possa seguir  os sonhos – ou seja, ela faz o papel de uma esposa amorosa sem estar casada com ele.

basicamente a personagem é uma mulher bonita, bem sucedida, que se casou (e divorciou) novamente depois do Carl e é uma boa mãe e que quer que o filho tenha uma boa relação com o pai (por mais que ele fique cagando no pau vez após vez). ela trabalha bastante no filme, mas não sabemos com o que – ela não tem uma história, motivação, personalidade. a única função dela o filme é ter tido o filho com o chef e ficar dando combustível para ele correr atrás do que ele quer – e ser a recompensa quando ele finalmente vira adulto.

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procurando o sentido da personagem Inez

a outra personagem feminina do filme é interpretada pela Scarlett Johansson, num papel tão rasinho e rápido que a única coisa que sabemos é que ela é uma hostess competente, que eventualmente é ~seduzida pela comida autoral do chef. apesar dele fazer comida bunda mole no restaurante e viver numa pilha de estresse por isso, ela diz que ele é o melhor chef com quem ela já trabalhou e que ele deve ir atrás dos sonhos, yadda yadda yadda.

eu entendo que esse é um filme “de meninos”, que mostra o crescimento do Carl e a reaproximação dele com o filho, que mostra a amizade com o sous chef ( ❤ John ❤ Leguizamo ❤ ) e que o Jon Favreau escreveu sobre o que ele sabe e queria (e é uma metáfora sobre a carreira dele, passando por blockbusters e achando o prazer fazendo esse filme mais independente), mas eu não entendo por que as mulheres têm que ser só acessórios bonitos (MUITO bonitos, nesse caso) que existem exclusivamente para o personagem chegar ao topo. um filme sobre o crescimento de meninos e homens não precisa ser sobre mulheres, mas nem por isso elas precisam ser absolutamente nulas, né não?

bom, isso tudo dito, super recomendo o filme pra um dia de preguiça esparramada no sofá comendo uma pipoca e chorando por não estar comendo as delícias da tela – é divertido e bonitinho pra quando você não quer pensar muito – coisa que eu obviamente tenho problema em fazer.

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“Fulana pode”

Oi, eu sou aquela pessoa que costumava postar aqui faz pelo menos um mês, cês lembra? Aí hoje eu voltei por um motivo muito importante, eu vim entregar minha cabeça ao julgamento da sociedade secreta feminazi contra a família (nós) porque, perdão, fui machista.

Ontem estava com um grupo de amigas lindas e uma estava contando sobre sua foto de barriga de fora. Vocês já tiveram a sensação, enquanto dizem umas palavras que elas ao sair já são idiotas mas não tem como parar a frase no meio? Então, ao elogiar eu disse “ela pode, né”.

Poxa, que mancada.

É claro que ela pode: o corpo é dela, ela faz o que quiser. Só que essa minha amiga é magrinha, tem uma barriga sequinha e era disso que eu tava falando. E isso é bem besta porque na tentativa de fazer um elogio, afinal a foto da minha amiga ficou mesmo absurdamente linda, eu optei por reforçar um estereótipo de só magrinhas podem, eu optei por dividir o mundo entre quem pode isso ou aquilo.

Mancadíssima, cara.

Sabem, quem pode usar roupa curta ou comprida é quem quiser usar roupa curta ou comprida. Meio que o dono do corpo decide se pode fazer o que quiser fazer e estamos todas de boas. Todas lindas e deboas, aliás.

Quando a gente cresce em uma sociedade machista é muito comum que a gente internalize conceitos de dominação dos corpos – tipo determinar o que alguém pode usar pelo seu peso ou não. A gente tem isso tão interno que não consegue se libertar sem um fórceps. Pra mim, as três fases da libertação são:

1. Conseguir não dizer ao julgar
2. Conseguir não julgar at all
3. Conseguir aplicar a você

Ontem enquanto eu dizia eu percebi que estava falando uma asneira, mas não consegui no contexto pedir desculpas aos envolvidos porque não é normal você falar isso e depois dizer ‘NOSSA DESCULPA DESCULPA NÃO FOI ISSO QUE QUIS DIZER DESCULPA” e, enfim, fiquei matutando. A previsão é em breve eu não me importar com barrigas de fora nos outros e nos próximos passos até usar. Mas por hoje, só por hoje, eu quero dizer: magras e gordas, com curvas ou não: somos todas lindas e ficamos fabulosas quando nos sentimos bem e à vontade, a escolha de roupa é problema só da dona do corpo.

Eu dizer que alguém pode ou não baseada na taxa de gordura da referida não é um problema com vocês – é comigo. Eu internalizei esses conceitos, eu absorvi isso e reproduzo não confiando em mim mesma, me condenando por estar acima do peso o tempo todo. Eu preciso é me aceitar e me livrar disso, não condenar por aí. Sis, cês desculpam a mancada?

Então estendo o mindinho aqui pra vocês fazendo pink promisse: nunca mais julgar pela barriguinha de fora de novo? Combinado.

(Já pra bonita que tava na foto: você pode sim. Você não tava bonita porque é magra. Você tava bonita porque tava confortável e deboíssima).

elogio é bom e todo mundo gosta

ontem mil pessoas postaram na minha timeline aquele vídeo da mulher que andou por 10 horas em silêncio em NY para mostrar o que acontece com uma mulher em uma cidade grande. ela está usando uma roupa nada provocativa (que, segundo alguns neandertais, justificaria avanços) e não dá nenhuma moral. ela só anda na rua, vivendo a vida como uma pessoa qualquer. mas ela não é uma pessoa qualquer: ela é uma mulher.

é fácil para qualquer pessoa com empatia assistir esse vídeo e ficar enojado. ainda assim, não duvido que não faltam pessoas dizendo que são só elogios inofensivos – a maior parte das investidas não são violentas no sentido mais físico da palavra. tem “bom dia”, “como vai?” tem homem chamando a atenção da mulher porque tem alguém reconhecendo a beleza dela e ela deveria responder a isso. mas só quem vive isso numa base diária sabe como isso é incômodo e é violento, sim. só quem aguenta isso toda vez que sai na rua sabe dizer como é infernal querer viver em paz, sem que desconhecidos chamem a sua atenção simplesmente por você ser mulher.

ontem eu entrei no ônibus com seis sacolas de compras gigantescas, fui passar pelo cobrador e ele foi super simpático, disse “boa tarde” e elogiou minha tatuagem do braço. eu agradeci e comentei que era minha gata. ele respondeu “igual a dona, hein?” e ficou olhando com aquela cara nojenta que a gente conhece bem.

cachorro vidrotoda vez que uma dessas me acontece eu prometo que vou responder. que não vou ser insultada. que não vou aguentar quieta. mas mais uma vez, eu olhei pra baixo, passei com dificuldade com as minhas compras enquanto ele ficava me observando e fui sentar quietinha, completamente incomodada.

hoje eu estava voltando pra casa a pé e passei por carros parados no sinal vermelho. um deles tinha três homens sem camiseta (imagina, pedindo pra serem estuprados) que assobiaram pra mim como quem chama um cachorro. e sabe, quando alguém chama a sua atenção, é automático olhar. quando eu percebi que eram só babacas me tratando como um pedaço de carne, eu quis parar do lado do carro. eu quis perguntar por que eles achavam que tinham esse direito. eu quis mandar à merda. eu só fiz cara de nojo, baixei a cabeça e continuei vindo pra casa, me sentindo arrasada.

nos dois casos, homens me acharam bonita, desejável ou o que quer que seja. isso deveria ser uma coisa boa, certo? mas eu me senti mal. eu me senti invadida. eu me senti desrespeitada. eu me senti humilhada. eu me senti diminuída.

elogio não faz isso.

motivo pra perder a fé na humanidade do dia

todo dia eu levanto da cama, faço carinho na gata, lavo o rosto, tomo meu café e penso “hum, hoje vai ser um dia bom”. aí invariavelmente eu abro a internet e em cinco minutos eu já tenho dez motivos pra querer voltar pro útero da minha mãe e nunca mais sair de lá. pois vejam só que uns dias atrás a Emma Watson fez um discurso lindo e emocionado para a ONU, falando sobre feminismo, desbancando preconceitos sobre o tema e falando sobre como isso afeta homens e mulheres e como todos devem se envolver nas mudanças necessárias:

não por coincidência, hoje surgiu um site, com a logo do 4chan, ameaçando expor fotos nuas da atriz. pra mim, fica claro que as duas coisas têm relação. em uma notícia, encontrei mensagens de usuários do 4chan dizendo que “essa putinha feminista” vai ter o que merece. é 2014 e mulheres ainda são humilhadas por serem fortes e ameaçadas por serem feministas. é 2014 e as pessoas ainda acham que expor a intimidade de uma pessoa, famosa ou não, é de interesse público e que “se não quisesse que outras pessoas vissem, era só não fazer”.

nenhuma mulher deveria ser impedida de  tirar fotos do jeito que ela bem entender. se ela quiser que essas fotos sejam divulgadas para o grande público, existem revistas e sites especializados nisso. se não foi a escolha dela, talvez ela só queria tirar a foto para um parceiro/a ou, vejam só que inacreditável, porque era algo que ela queria fazer para ela mesma.

no fim das contas, talvez não vazem as fotos. mas o mais horrível, por enquanto, não é nem isso: é perceber que tornar o corpo feminino algo vergonhoso e a desapropriação dos direitos da mulher ainda são respostas vistas como válidas contra a luta pelos direitos iguais. um discurso apaixonado sobre como o mundo ainda não é um lugar justo para as mulheres é respondido com violência. tá tudo errado.

ps: tem um texto muito legal da Chez Noelle sobre o caso da Jennifer Lawrence que ainda se aplica a esse caso e muitos outros.

Sam Pepper e por que precisamos de feminismo

Sam Pepper, um ex-BBB britânico e atual babaca completo, publicou ontem um vídeo no seu canal do YouTube em que ele veste um moletom bem largo, que faz parecer que ele está com uma das mãos no bolso, enquanto ele está com a mão livre, escondida na roupa. ele se aproxima de mulheres na rua pedindo informações e pega na bunda delas.

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vou repetir: ele se aproxima de pessoas que estão simplesmente vivendo a vida na rua e agarra a bunda delas. e diz que foi outra pessoa, afinal, ele tá com a mão no bolso. ele chama isso de pegadinha. eu chamo isso de  assédio. eu chamo isso de violência. eu chamo isso de escrotice. eu chamo isso de falta de respeito. eu chamo isso de cultura de estupro.

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é claro que desde então a internet explodiu em opiniões de quem ficou revoltado com essa babaquice e quem não vê problema, porque “é só uma piada”. é a mesma desculpa que escutamos quando qualquer pessoa privilegiada faz uma coisa errada e depois diz que é só uma piada – Danilo Gentili “”””sofrendo racismo”””” por ser chamado de palmito, alguém?

vou desenhar bem desenhadinho aqui caso alguém não consiga entender pela escola  da vida: mulheres são humilhadas e diminuídas todos os dias de sua vida simplesmente por serem mulheres. a sexualização das mulheres é válida desde que sirva ao propósito de agradar homens ou servir de piada. pois vejam só: ser humilhada não é engraçado. se alguém me pedisse informações na rua e cuspisse na minha cara, dá na mesma que pegar na minha bunda e postar no YouTube.

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a primeira menina do vídeo (que você pode assistir nesse link sem dar audiência pro canal original do Sam Pepper) se mostra claramente envergonhada com a situação e ele chega a mostrar a “mão falsa” pra ela. ela fica horrorizada e diz “eu não gosto disso” várias vezes. dá pra ver que ela fica desconcertada, como qualquer mulher fica nessas situações de assédio. ele vai lá e dá um abraço nela – o abraço mais esquisito, horrível e enojante que você poderia imaginar.

esses tempos eu li alguém comentando que ser mulher hoje em dia é como ser uma bicicleta em uma cidade feita para acomodar carros. você até consegue encontrar algum espaço, mas você sempre corre mais riscos e passa muito mais tempo que deveria ser necessário tentando se manter em segurança. ainda assim, alguns carros simplesmente negam que você deva ocupar esse espaço e alguns carros querem que você saia da rua de qualquer forma, e para isso, estão dispostos e causar algum tipo de acidente.

nesse caso, o Sam Pepper é uma SUV atropelando uma bicicleta que estava andando na ciclofaixa. mas pelo menos dessa vez, todo mundo está olhando e as medidas cabíveis podem ser tomadas. eu tenho esperança.

 

vai ter sim, se reclamar vai ter dois

tem gente aqui que me conhece do deborices, gente que me conhece daqui mesmo, gente que lembra da época do fashion descontrol, gente que veio parar aqui depois de ler o novo deborices e sabe o que isso quer dizer? que eu já tive blog pra cacete.

não é que eu seja vira casaca nessa questão, veja, o meu problema é sempre o mesmo: eu realmente me importo demais mesmo com o que as outras pessoas vão dizer, o tempo todo. sofro as dores do mundo nisso e tento todos os dias acordar e prometer pra mim mesma que não vai ser assim, mas nunca é.

nesse pacote de sofrimento desnecessário entram pequenas coisas que eu posto no blog, como looks do dia e artigos de moda (que eu adoro). a moda, veja você, pra mim é uma arte desprezada exatamente por ser feminina. a Ju me mandou um texto sobre isso inclusive e eu concordei de cabo a rabo. o caso é que no mundo da pintura ou da gastronomia nós temos homens notáveis então essas são consideradas artes legítimas. mas a moda sempre foi muito mais sobre mulheres, logo sendo associada a futilidade. quando você analisa de perto não tem muita diferença em usar cores e formas pra se expressar em uma tela ou nas suas roupas, né?

mas mesmo que a gente racionalize algo é difícil convencer o coração a parar de se sentir mal e eu, sim, me sentia fútil postando look do dia, me sentia malzona mesmo. ainda me sinto às vezes. mais ainda porque pessoas cuja inteligência eu realmente admiro vivem falando coisas contra tirar fotos de você mesma e quando eu ouço essas pessoas me sinto mais burra segundo a avaliação delas. então, por não saber lidar com isso, deletava os blogs que tinha, recomeçava e, quando via, tava fazendo look do dia de novo e me sentindo burra de novo… vocês entenderam, né? um ciclo.

acontece que chega uma hora que ser feminista significa saber libertar você de você mesma. por exemplo, eu gosto de moda e ninguém tem nada a ver com isso. eu posso me permitir isso sem me entregar a dicôtomia do burra mas bonita x feiosa mas inteligente. eu posso me permitir criar o belo enquanto leio meu Guimarães Rosa sem ninguém ter nada com isso.

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mas daí quando você resolve parar de se importar acontece uma coisa engraçadissima: você passa a ser o incômodo. você incomoda com o fato de que quando você tira uma foto de você mesma você se sente bonita, você incomoda porque mulher empoderada incomoda. mulher segura de sí incomoda.

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e não precisa ir muito longe pra ter exemplo disso.

veja, é um caminho longo, algo do qual eu não me livrei totalmente ainda e nem sei se vou me livrar, mas é um exercício ótimo. afinal, um homem pode passar sua vida sem se questionar se ele é bonito e adequado a sociedade, mas a mulher… pra gente é mais difícil porque nós somos cobradas a sermos bonitas mas ensinadas que achar que você atingiu essa beleza é uma coisa muito feia. e a gente é ensinada assim tão profundamente que a gente também tem que se sentir péssima, mal, acabada quando alguém elogia a gente pela escolha de roupa, pela cor do cabelo ou qualquer coisa assim. a gente não pode se gostar porque se gostar significa que sua opinião é que você tá ótima e que quando alguém tentar te controlar pelo seu peso ou escolha fashionista você pode falar ‘foda-se’ e não deixar-se dominar.

daí vem uma outra corrente que diz que o look do dia é buscar aprovação e, sabe, algumas meninas realmente fazem por esse motivo. mas o que há de errado, por que devemos nos sentir mais burras ou piores por querermos uma aprovação de vez em quando? não é o que todo ser humano quer? um elogio? um abraço? fomos condicionadas a buscar por isso e agora vamos tacar pedras nas irmãs que fazem abertamente?

e tem outra: nem todo mundo faz pela aprovação. eu já fiz pela aprovação, sinto bem a diferença. quem faz pela aprovação não usa o que gosta. eu faço porque, oras, porque eu acho que eu me visto bem pra cacete e eu quero mostrar. quem escreve pode querer ser lido. quem canta pode querer ser ouvido. e quem tem como passatempo se vestir pode querer fotografar isso. isso não é tao difícil de compreender, né?

então, eu digo assim: vai ter look do dia no meu novo blog, vai sim. se reclamarem vai ter todo dia só pra provocar. só pra eu sambar na cara de quem acha que pode controlar meu corpo e como eu o adorno e o fotografo e quanto prazer eu tenho em ver a minha figura. só pra mostrar que você não manda em mim, não. se quiser me chamar de burra e superficial por isso, eu te digo: superficial é você que viu uma foto minha e já acha que sabe tudo sobre mim. posso ser mais burra em algumas coisas e mais inteligente em outras mas sobretudo sei que não é uma foto minha me amando que vai definir esses meus traços, mas todo um conjunto de outras coisas que não te dizem respeito. aliás eu nem tenho obrigação de ser isso ou aquilo só pra te agradar.

e minha opinião sobre look do dia é a mesma que eu tenho sobre cabelo colorido, sobre sexo, sobre casamento gay, sobre drogas, sobre dar pra cidade inteira, sobre usar uma mini saia do tamanho de um cinto e um top bem anos 90, sobre fazer scarnification e botar um chifre no meio da sua cara, sobre largar seu emprego em uma grande corporação e ir viver nas cavernas ou viajar o mundo, sobre não ter filhos, sobre ter dez filhos, sobre tudo que você faz consigo mesmo nessa vida: você não gosta, amigo? não faz. mas não vem mandar no meu corpo nem do mais ninguém. supere suas neuras e me deixe viver.

vai ter look do dia sim. se chorar vai ter dois, três, quatro, cinco mil. eu vou me empoderar sambando na avenida se for isso que eu quiser. beijo pro recalque.

stop

(e eu já postei o primeiro no meu blog novo.)

vale quanto pesa

Eu sinto como se falar sobre feminismo fosse mais do metier da Debs ou da Julia por aqui, mas eu leio coisas e vejo coisas por aí que, mesmo não articulando tanto quanto elas, eu gostaria de dividir com vocês. Alguns raciocínios parecem simples, mas ainda estão tão distantes do nosso cotidiano e do nosso objetivo (ou ao menos do meu, de ser uma pessoa melhor) que eu acho que valem a reflexão.

Dentre os poucos sites que eu acompanho sobre feminismo atualmente está o Lugar de Mulher, que essa semana publicou um texto incrível da Lélia Almeida chamado Mulheres Famintas, no qual ela fala sobre a ditadura da magreza excessiva, das dietas e de como esse comportamento está se refletindo nas gerações futuras. Particularmente, eu destaco um único e incrível parágrafo:

(…) Marcela Lagarde em muitos dos seus textos diz que as mulheres de hoje se comportam como criaturas medievais desejosas unicamente de um amor romântico impossível de ser realizado e sem nenhuma reflexão crítica sobre seu amor próprio. E que isto as debilita e enfraquece, já que ninguém com estes sentimentos desenvolve suas potencialidades.(…)”

Isso me assusta porque eu vejo acontecendo à minha volta o tempo todo, na minha família, acontecendo na minha casa sem que ninguém pare pra pensar ou analisar um só instante. Gente, até Queen B tá falando disso, será que não está na hora de rever MESMO o que fazemos com nossos corpos, como nos sentimos com ele e que exemplo damos?

"Pretty hurts, we shine the light on whatever's worst"

“Pretty hurts, we shine the light on whatever’s worst”

O discurso da Lélia também me remeteu imediatamente à esse vídeo, o poema Shrinking Women (Mulheres que encolhem), da Lily Myers que vive me deixando com lágrimas nos olhos e que vale três minutos da sua atenção. Mesmo porque eu posso apostar que você já viu isso acontecer ao seu redor:

Dá pra ver com legenda em inglês e tem tradução dele aqui, mais uma vez evidenciando o desejo de magreza estar intrinsecamente ligado à deficiência de autoestima. E, pra mim, a pergunta que sempre fica é: por que queremos/devemos nos encolher?

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Britney Spears foi traída, um dos maiores escândalos da semana. o bafafá foi gravado e, para proteger sua filhota, Spears pai bateu o pau na mesa e comprou os direitos autorais da filmagem. agora quem reproduzir vai ganhar um amigo processinho.

 

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mas é claro que a história vazou e, desde então, só nisso se fala. and here comes a twist: enquanto todo mundo esperava que Britoca ficasse em casa comendo um pote de sorvete e cantando “all by myself don’t wanna be” ela prova que, bem, não é bem por aí:

e depois nos ensinou exatamente como superar dias ruins em um maravilhoso vídeo que você assiste clicando aqui.

como esse é o caso da semana (fora o das fotos da J. Law pelada sobre o qual a Noelle já disse tudo que é necessário, claro), eu resolvi dar meus dois centavos. e eles são: obrigada, britney, por não se fazer de vítima. porque sabe, eu já fui chifruda, quase todas minhas amigas já foram chifrudas, chifre acontece, somos todas chifrudasney como você – mas não precisamos nos definir por isso.

eu sempre achei curioso como ser traído é considerado uma vergonha porque, bem, você é a vítima. quem deveria ficar com vergonha não é o traídor? ter vergonha de ser desleal? de não poder ser confiável?

e a coisa fica mais esquisita quando é uma mulher super power celebrity tomando um par de chifres: a reação do público é “nossa, como pode, uma mulher maravilhosa dessas tomando chifre… que será que aconteceu? coitadinha”. isso não só parte do pressuposto que a vergonha é do traído mas também de que chifre é algo que você toma quando merece porque, veja, se fosse gorda, sem graça e escrota a gente entendia, mas uma Britney tomar chifre choca.

a gente naturaliza as traições como uma válvula de escape masculina para buscar algo que falta, algo que supostamente não poderia faltar no relacionamento com uma mulher perfeita. e sabe o que falta num homem que põe chifre?

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pra mim isso é válido em todo tipo de deslealdade, seja romântica, com amigo, com a família, com o emprego – principalmente a parte da coragem. quando você precisa mentir e trair pra fazer algo que quer, quando precisa ser escondido é porque por algum motivo você não tem coragem de assumir seus reais desejos. a questão não é beijar ou fazer sexo com outra pessoa, mas é sair do combinado, não sabe manter a palavra, ou seja, prometer algo que você não está disposto a doar.

falo isso com o maior dos conhecimentos de causa porque chifre já levei e já presenteei. em ambas as vezes reconheço um belíssimo caso de falta de coragem por parte do chifrador. percebam, eu era adolescente, inconsequente e meio escrota quando fiz. criei mil razões em minha cabeça pra fazê-lo “estou apaixonada verdadeiramente”, “estou amando”, “o cara que eu trai é um escroto e já me sacaneou” e, sabe, deborinha adolescente, essas não colam. se o cara é um escroto, termina. tá amando? vai ser feliz sem enganar ninguém. não traia. não seja desleal. tenha coragem de assumir quando você quer uma coisa e quando não quer, abrace as consequências e não magoe ninguém no processo. simples assim.

não entender que o traídor é sempre apenas um covarde é também uma roubada que faz a gente se culpar quando é traída. e, believe me, todas podemos ser traídas. na minha vez eu inventei mil defeitos em mim pra justificar: “estou gorda”, “estou desinteressante”, “sou burra”, “sou sem graça”.

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– fizeram algo errado comigo, logo a culpa deve ser do brigadeiro a mais que eu comi, ctza.

enfim, o mais triste é o quanto essa questão da traição é reduzida a mais uma ferramenta de controle da sexualidade da mulher. quando uma mulher é traída a gente espera que ela chore por não se sentir suficiente – afinal tem de ser perfeita para ser merecedora de um homem. mas quando um homem é traído, a gente espera que ele seja violento pra defender sua honra, afinal ele tem posse sobre a mulher e isso foi maculado.

ao mesmo tempo que está rolando essa história da Brit, também rola por aí no universo negro do whatsapp (pior que deep web) um revenge porn pesadíssimo do cara que pegou a mulher com outro na cama e encheu a lata dela. e, sabe, tá tudo errado. tudinho. porque mulher nenhuma por motivo algum no mundo merece apanhar.

bater em uma mulher é só renovar o voto de posse que os homens pensam ter sobre ela. traiu? tá errada, tá escrota. merece uma conversa séria, talvez um término de relacionamento, tem que sentar no cantinho ali pra pensar com calma sobre a cagada que fez. mas quando você reage com violência à traição demonstra um sentimento de posse sobre o outro. e pode estar casado faz trinta anos, amigo, ninguém é dono de ninguém. o relacionamento, o amor ainda podem acabar. e pode ser que vocês não saibam lidar com isso.

a traição é uma escolha pessoal do traidor. por isso eu penso que ela não merece nenhuma atitude do traído fora a auto preservação e talvez uma dose de humor pra lidar com isso. você não precisa lavar sua honra. você não manchou sua honra. a gente mancha a honra quando a gente faz escrotice com os outros, mas se você foi traído a história só tem um babaca e esse babaca não é você.

por isso que, pra mim, Britoca está tirando de letríssima esse lance de tomar chifre. sem processos, escândalos, violência, dando risada da babaquice que o David Lucado fez, usando o caso como recheio de uma piada em que o palhaço é o covarde que não sabe ter lealdade.

aprendamos que, em vez de ficar sentindo pena de sí mesma quando tomar chifre, a gente tem é que sentir pena da pessoa que poderia ter um relacionamento ou um término de relacionamento bacana, poderia ter tido uma atitude mais sincera contigo mas não teve coragem e optou pelo caminho da mentira. sinta pena de quem não sabe resolver os próprios problemas. e enxergue que você não tem defeito nenhum que mereça deslealdade de nenhum tipo.

ah, e eu não acho que todo traído deve terminar o relacionamento. existem mil histórias, erros acontecem, cada um vive uma realidade. por mais triste e difícil que seja, o que acontece após uma traição só diz respeito aos acordos feitos entre o traído e o traidor. conheço casais felizes que superaram traições, conheço casais infelizes que nunca traíram. não dá pra gente vender uma fórmula de casamento perfeito. mas, caso você resolva dar um pé na bunda do covarde, aprenda a comemorar com a Britney que tudo tem um lado bom.

sobre empatia com o que não é pra você

hoje eu tava lá rolando o facebook casualmente quando vejo que um amigo curtiu uma publicação de uma mulher falando que acha uma frescura o desafio do #stopthebeautymadness: segundo ela, é por isso que tratam o feminismo como desnecessário e chato. eu acho muito louco como hoje em dia você precisa ver algo na internet e imediatamente formar e emitir uma opinião sobre o assunto. normalmente, se você gosta ou acha ok, o silêncio é o caminho. se você achou uma besteira, o jeito é fazer um post descendo o cacete no desafio/causa/opinião do amiguinho.

"discordo da sua opinião e você está errado e merece morrer" (INTERNET, todo mundo na)

“discordo da sua opinião e você está errado e merece morrer” (INTERNET, todo mundo na)

pois vejam só, eu não participei do desafio – apesar da Debs ter me indicado – porque, bem, em 90% do tempo eu não uso maquiagem. eu não me sinto mal sem maquiagem e achei que eu não teria muito a dizer sobre o assunto que ela tratou com tanta delicadeza e lucidez. mas aí eu li isso e comecei a pensar que talvez a mulher que escreveu isso também se sente bem na própria pele sem maquiagem ou até mesmo detesta usar maquiagem.

só que esse desafio foi feito para trazer conscientização em um mundo em que as meninas sofrem pressão para “serem bonitas” (ou seja, usarem maquiagem diariamente e fazer chapinha) quando ainda nem entraram no colegial. esse desafio foi feito pras meninas de dez a vinte anos que curtem dezenas de blogueiras de moda no instagram que só postam foto de look do dia com a pele impecável em um ângulo milimetricamente calculado. esse desafio foi feito para as jovens mulheres que acompanham blogs e páginas de rainhas do fitness que aparentam ser perfeitas. esse desafio foi feito pra mostrar que não tem nada de errado em gostar de maquiagem, desde que esse não seja o único jeito que você aprendeu a se gostar.

talvez a pessoa que descreveu o desafio como desnecessário e fútil nunca teve um colega de trabalho perguntando se ela tava doente só porque tava sem maquiagem. talvez essa mulher nunca foi uma adolescente que desenvolveu distúrbios alimentares porque via imagens de mulheres inatingíveis na mídia e ela não conseguia se encaixar. talvez essa mulher não entenda que o desafio não é simplesmente postar uma foto sem maquiagem, e sim conseguir ver a própria beleza além das máscaras. a pressão para as mulheres se encaixarem em um modelo de beleza existe e está muito vivo e forte na internet, thankyouverymuch. por isso é importante que formadoras de opinião, amigas e modelos de comportamento mostrem que têm marcas de espinha, olheira, aquela espinha que apareceu na ponta do nariz sem ser convidada, aquela falha na sobrancelha ou alergia no rosto.

porque sabe, eu nunca apanhei com lâmpada fluorescente na Augusta mas eu sei que não posso negar que homofobia existe e mata. eu nunca passei fome pra emagrecer e me encaixar num padrão, mas sei que não posso sair dizendo que quem sofre de anorexia é fútil. eu nunca fui estuprada, mas isso não me dá o direito de achar que outras mulheres também nunca foram ou que não merecem respeito por isso. empatia com o que não tem nada a ver com você mas é importante para outras pessoas não custa nada, não dói e só faz bem.

um desafio simples para trazer consciência à beleza feminina é uma ferramenta para o empoderamento e ao aumento da auto estima de milhares de mulheres que acordam todos os dias e se olham no espelho e se acham gordas, com a pele ruim e o cabelo imperfeito porque foi isso que elas aprenderam a vida toda. e se você não consegue enxergar como isso é importante e tem a ver com feminismo, tá faltando empatia, compreensão do que é futilidade e um pouco de reflexão sobre o mundo em que as mulheres vivem – e não só o que você percebe à sua volta.

Stop the beauty madness

A Britney de Santo André, Miss Borboletando, me convidou pro#desafiocaralimpa e aqui estou. É difícil me ver sem maquiagem e é bizarro porque… Eu nasci sem isso?

Quando comecei a fazer terapia e enfrentar minha depressão uma ferramenta que me ajudou foi ler blogs de beleza. Me fez descobrir que me enfeitar não me deixa mais burra e me abrir contra a dicotomia da futil gostosa x a feinha inteligente. Descobri que passar um batom não derrete meu cérebro e que fazer look do dia não me faz estúpida. Descobri que qualidades podem coexistir desde que a gente não aceite os rótulos. Foi uma das minhas primeiras libertações. Mas também foi uma prisão que me fez pensar que eu deveria seguir alguns padrões que, bem, não são obrigatórios. Confuso, né? Confesso que o conforto de me encaixar em uma turma pela primeira vez na vida foi a cilada.

Mas hoje sei e tenho orgulho de ser linda como todas somos e tomar consciência disso a cada dia. Acho que ser mulher na nossa época é conquistar o direito de testar e se descobrir – já faz um ano, por exemplo, que venho me desintoxicando passo a passo, do consumismo como forma de me fazer ser aceita. Não preciso ter o batom e a bolsa certa pra ser amada por ninguém. Essa semana, por exemplo, parei de seguir tudo que me incentivava a consumir mais do que a pensar. Isso não significa não comprar roupas e maquiagens e ler blogs de estilo, apenas selecionar os que são escritos para quem gosta e não para quem usa isso como guia de fuga da realidade. Faço marketing de conteúdo e gosto de ter esse cuidado com meus clientes também, acho que é meu papel como cidadã trabalhar com ética e sem vender a alma para a armadilha de destruir a auto estima da mulher para fazê-la comprar. Acredito muito mais em empoderamento. Acho também que o mundo esta mudando nesse sentido, ainda bem.

Tirar a maquiagem não deveria ser um desafio nem um alivio, deveria ser algo normal. Nascemos sem mascaras. Não precisamos delas para nada. Se sua forma de me incentivar a cumprir esse desafio é dizer que eu nem preciso de maquiagem (um comentário comum) saiba que eu agradeço mas a verdade é que isso não é elogio: ninguém precisa de maquiagem. Não existe uma beleza base que não precisa se mascarar, esse padrão excludente provoca com que quem não se encaixa use a maquiagem como disfarce para ser igual. Igual é entediante. Todas somos lindas do jeito que somos, da forma que temos, a beleza maior é a diversidade. Usamos porque gostamos.

nomakeup

A maquiagem, como todas as suas atitudes, deve ser algo pra você e não pra se adaptar ou encaixar na idealização do outro. Foi uma longa caminhada racionalizar isso e os sentimentos ainda me traem quando tento praticar. Mas um passo de cada vez é o que nos torna mulheres cada dia mais livres.

Desafio minhas companheiras da Casa, mulheres que me ensinaram a amar ser quem eu sou e me aceitaram independente de expectativas, a participar: Wiczneski, Sheilla, Julia e Pri estão convidadas, caso queiram.

Quem quiser mais informações sobre o projeto pode visitar o site e participar também. Stay beautiful & strong!