Chef ou Como um bundão vira homem com a ajuda de mulheres mágicas

o filme Chef virou queridinho no verão norte-americano: escrito, dirigido e estrelado pelo Jon Favreau, ele conta a história de um chef de cozinha de um restaurante francês que larga o emprego maçante fazendo comida sem graça e abre um food truck para fazer a comida que ele quer na companhia de um cozinheiro amigo e o filho de dez anos. é um filme fofo, divertido, com uma trilha sonora impecável e comidas absurdamente apetitosas.

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OLAR

mas aí eu começo a pensar demais. o Carl é um chef de  cozinha fodão que trabalha há muitos anos sendo infeliz em um restaurante francês, fazendo comida clássica e sem nenhuma liberdade. ele não tem tempo nem responsabilidade com o filho de dez anos, mas magicamente nem o filho nem a ex esposa ficam minimamente chateados com isso. a ex esposa Inez (Sofia Vergara) já está divorciada dele há tempos, mas continua acompanhando o que ele faz, dando apoio, conselhos e ajudando para que ele possa seguir  os sonhos – ou seja, ela faz o papel de uma esposa amorosa sem estar casada com ele.

basicamente a personagem é uma mulher bonita, bem sucedida, que se casou (e divorciou) novamente depois do Carl e é uma boa mãe e que quer que o filho tenha uma boa relação com o pai (por mais que ele fique cagando no pau vez após vez). ela trabalha bastante no filme, mas não sabemos com o que – ela não tem uma história, motivação, personalidade. a única função dela o filme é ter tido o filho com o chef e ficar dando combustível para ele correr atrás do que ele quer – e ser a recompensa quando ele finalmente vira adulto.

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procurando o sentido da personagem Inez

a outra personagem feminina do filme é interpretada pela Scarlett Johansson, num papel tão rasinho e rápido que a única coisa que sabemos é que ela é uma hostess competente, que eventualmente é ~seduzida pela comida autoral do chef. apesar dele fazer comida bunda mole no restaurante e viver numa pilha de estresse por isso, ela diz que ele é o melhor chef com quem ela já trabalhou e que ele deve ir atrás dos sonhos, yadda yadda yadda.

eu entendo que esse é um filme “de meninos”, que mostra o crescimento do Carl e a reaproximação dele com o filho, que mostra a amizade com o sous chef (❤ John❤ Leguizamo❤ ) e que o Jon Favreau escreveu sobre o que ele sabe e queria (e é uma metáfora sobre a carreira dele, passando por blockbusters e achando o prazer fazendo esse filme mais independente), mas eu não entendo por que as mulheres têm que ser só acessórios bonitos (MUITO bonitos, nesse caso) que existem exclusivamente para o personagem chegar ao topo. um filme sobre o crescimento de meninos e homens não precisa ser sobre mulheres, mas nem por isso elas precisam ser absolutamente nulas, né não?

bom, isso tudo dito, super recomendo o filme pra um dia de preguiça esparramada no sofá comendo uma pipoca e chorando por não estar comendo as delícias da tela – é divertido e bonitinho pra quando você não quer pensar muito – coisa que eu obviamente tenho problema em fazer.

“Fulana pode”

Oi, eu sou aquela pessoa que costumava postar aqui faz pelo menos um mês, cês lembra? Aí hoje eu voltei por um motivo muito importante, eu vim entregar minha cabeça ao julgamento da sociedade secreta feminazi contra a família (nós) porque, perdão, fui machista.

Ontem estava com um grupo de amigas lindas e uma estava contando sobre sua foto de barriga de fora. Vocês já tiveram a sensação, enquanto dizem umas palavras que elas ao sair já são idiotas mas não tem como parar a frase no meio? Então, ao elogiar eu disse “ela pode, né”.

Poxa, que mancada.

É claro que ela pode: o corpo é dela, ela faz o que quiser. Só que essa minha amiga é magrinha, tem uma barriga sequinha e era disso que eu tava falando. E isso é bem besta porque na tentativa de fazer um elogio, afinal a foto da minha amiga ficou mesmo absurdamente linda, eu optei por reforçar um estereótipo de só magrinhas podem, eu optei por dividir o mundo entre quem pode isso ou aquilo.

Mancadíssima, cara.

Sabem, quem pode usar roupa curta ou comprida é quem quiser usar roupa curta ou comprida. Meio que o dono do corpo decide se pode fazer o que quiser fazer e estamos todas de boas. Todas lindas e deboas, aliás.

Quando a gente cresce em uma sociedade machista é muito comum que a gente internalize conceitos de dominação dos corpos – tipo determinar o que alguém pode usar pelo seu peso ou não. A gente tem isso tão interno que não consegue se libertar sem um fórceps. Pra mim, as três fases da libertação são:

1. Conseguir não dizer ao julgar
2. Conseguir não julgar at all
3. Conseguir aplicar a você

Ontem enquanto eu dizia eu percebi que estava falando uma asneira, mas não consegui no contexto pedir desculpas aos envolvidos porque não é normal você falar isso e depois dizer ‘NOSSA DESCULPA DESCULPA NÃO FOI ISSO QUE QUIS DIZER DESCULPA” e, enfim, fiquei matutando. A previsão é em breve eu não me importar com barrigas de fora nos outros e nos próximos passos até usar. Mas por hoje, só por hoje, eu quero dizer: magras e gordas, com curvas ou não: somos todas lindas e ficamos fabulosas quando nos sentimos bem e à vontade, a escolha de roupa é problema só da dona do corpo.

Eu dizer que alguém pode ou não baseada na taxa de gordura da referida não é um problema com vocês – é comigo. Eu internalizei esses conceitos, eu absorvi isso e reproduzo não confiando em mim mesma, me condenando por estar acima do peso o tempo todo. Eu preciso é me aceitar e me livrar disso, não condenar por aí. Sis, cês desculpam a mancada?

Então estendo o mindinho aqui pra vocês fazendo pink promisse: nunca mais julgar pela barriguinha de fora de novo? Combinado.

(Já pra bonita que tava na foto: você pode sim. Você não tava bonita porque é magra. Você tava bonita porque tava confortável e deboíssima).

elogio é bom e todo mundo gosta

ontem mil pessoas postaram na minha timeline aquele vídeo da mulher que andou por 10 horas em silêncio em NY para mostrar o que acontece com uma mulher em uma cidade grande. ela está usando uma roupa nada provocativa (que, segundo alguns neandertais, justificaria avanços) e não dá nenhuma moral. ela só anda na rua, vivendo a vida como uma pessoa qualquer. mas ela não é uma pessoa qualquer: ela é uma mulher.

é fácil para qualquer pessoa com empatia assistir esse vídeo e ficar enojado. ainda assim, não duvido que não faltam pessoas dizendo que são só elogios inofensivos – a maior parte das investidas não são violentas no sentido mais físico da palavra. tem “bom dia”, “como vai?” tem homem chamando a atenção da mulher porque tem alguém reconhecendo a beleza dela e ela deveria responder a isso. mas só quem vive isso numa base diária sabe como isso é incômodo e é violento, sim. só quem aguenta isso toda vez que sai na rua sabe dizer como é infernal querer viver em paz, sem que desconhecidos chamem a sua atenção simplesmente por você ser mulher.

ontem eu entrei no ônibus com seis sacolas de compras gigantescas, fui passar pelo cobrador e ele foi super simpático, disse “boa tarde” e elogiou minha tatuagem do braço. eu agradeci e comentei que era minha gata. ele respondeu “igual a dona, hein?” e ficou olhando com aquela cara nojenta que a gente conhece bem.

cachorro vidrotoda vez que uma dessas me acontece eu prometo que vou responder. que não vou ser insultada. que não vou aguentar quieta. mas mais uma vez, eu olhei pra baixo, passei com dificuldade com as minhas compras enquanto ele ficava me observando e fui sentar quietinha, completamente incomodada.

hoje eu estava voltando pra casa a pé e passei por carros parados no sinal vermelho. um deles tinha três homens sem camiseta (imagina, pedindo pra serem estuprados) que assobiaram pra mim como quem chama um cachorro. e sabe, quando alguém chama a sua atenção, é automático olhar. quando eu percebi que eram só babacas me tratando como um pedaço de carne, eu quis parar do lado do carro. eu quis perguntar por que eles achavam que tinham esse direito. eu quis mandar à merda. eu só fiz cara de nojo, baixei a cabeça e continuei vindo pra casa, me sentindo arrasada.

nos dois casos, homens me acharam bonita, desejável ou o que quer que seja. isso deveria ser uma coisa boa, certo? mas eu me senti mal. eu me senti invadida. eu me senti desrespeitada. eu me senti humilhada. eu me senti diminuída.

elogio não faz isso.

playlist da primavera

tá empoeiradinha essa casa, hein? quando a gente decidiu fazer o blog, a ideia era escrever quando desse vontade e sobre o que desse vontade, sem ~linha editorial e sem cronograma estabelecido. isso significa que nos últimos tempos eu pensei em mil coisas que eu queria escrever aqui, mas aí bateu aquela pregs e eu sofri calada deixei quieto.

euzíssima

euzíssima

aí que esses dias tava mexendo no Spotify e lembrei que esses dias uma amiga veio pedir indicações de bandas, porque, segundo ela, eu sempre tinha umas coisas legais pra mostrar (<3). e eu lembrei que no começo da faculdade eu e minhas amigas sempre trocávamos cds gravados (um segundinho de silêncio em nome da nostalgia) e que fazia muito tempo que eu não fazia isso – e eu adoro montar playlists. parei pra pensar um pouquinho no que eu queria fazer e comecei a fuçar atrás de músicas ~primaveris – no meu critério esquizofrênico, é claro.

nem tudo que tá aí é novidade (aliás, tem coisa que não é novidade há uns quarenta anos), mas tudo é lindo.a lista foi pensada pra ser ouvida na ordem bonitinha e te deixar dançandinho e feliz : )

ps: se você não tem conta no Spotify, super vale a pena, é bem rápido e se você não quiser fazer a conta paga – que é bem baratinha – a versão gratuita também é bem boa, só tem uma ou outra propaganda curtinha às vezes.

Eu, Bridget Jones

Hoje pipocaram imagens no Facebook, Twitter, Portais de Notícias, acerca do novo visual de Renée Zellweger. A eterna Bridget Jones teria exagerado no Botox e choveram declarações de que está irreconhecível, horrível, de que onde já se viu estragar o rosto dela desse jeito.

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Mas não vi nenhuma entrevista com Renée dizendo que este era o resultado que ela queria. E se for? Ok, a despeito das preferências pessoais, o que importa é que ELA esteja feliz. Por mais que as feições dela tenham mudado bastante, se você olhar direitinho, não ficou ruim assim. A princípio sempre rola aquela rejeiçãozinha, porque sabemos como ela era e é num primeiro momento pode parecer chocante ver uma mudança supostamente drástica, mas que se analisarmos a linha histórica dela nem é tão impressionante assim.

Inclusive se colocassem uma foto da Renée na frente de alguém que nunca tenha a visto, essa pessoa não conseguiria apontar o problema no rosto dela. Claro que pioram a situação colocando lado a lado fotos da época do lançamento de Bridget Jones (2001) e de ontem (20/10/2014). Gente, são 13 anos de diferença! É óbvio que ela está com uma aparência mais velha, porque deeeeeerrrrrr, ela está mais velha.

Além disso, eu particularmente acho que o que mais impressiona nem é o botox, mas o fato que a maquiagem não colaborou, principalmente com sobrancelhas por tirar. Além da blefaroplastia, plástica nas pálpebras, que deu uma mudada no olhar dela.

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E o buraco mais embaixo: vai que nem ela gostou da cara nova dela? Vai que ela só foi até o evento por causa de algum contrato publicitário quando o que mais queria era estar em casa, com um cobertor na cabeça e se afundando de sorvete enquanto espera que seu rosto volte lentamente ao normal?

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Levante a mão quem nunca passou raiva no cabelereiro. Eu mesma já saí urrando várias vezes de salões, seja de cortes desastrosos de cabelo, seja de sobrancelha mal tirada. A massagista que te deixa roxa na véspera de você ir para a praia com as melhores amigas. O bronzeamento artifical que te deixa laranja um dia antes de uma festa importante. Todo mundo tem uma história dessa para contar, acredite em mim.

O que não pode acontecer é a gente deixar de vivem por uma coisa dessas. Apontar o dedo para a amiguinha aparentemente bizarra sem saber o que está por trás da história dela não ajuda nada, muito pelo contrário. Em uma época de suicídios em massa, inclusive de artistas conhecidos, me choca a rapidez com que as críticas afloram sem considerar a pessoa que está do outro lado.

E nem precisamos ir muito longe. Essa semana a Globeleza ficou sabendo pela mídia que foi afastada do cargo e está super deprimida com os comentários preconceituosos deixados nas matérias a respeito.

E sabe, não adianta você consolar uma amiga passando por uma situação dessas e ficar apontando o dedo e rindo quanto a mesmíssima coisa acontece com alguém nem tão próximo. Tá sobrando individualização e faltando consciência de indivíduo nesse mundo.

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Me liga, Renée. Eu te entendo.

motivo pra perder a fé na humanidade do dia

todo dia eu levanto da cama, faço carinho na gata, lavo o rosto, tomo meu café e penso “hum, hoje vai ser um dia bom”. aí invariavelmente eu abro a internet e em cinco minutos eu já tenho dez motivos pra querer voltar pro útero da minha mãe e nunca mais sair de lá. pois vejam só que uns dias atrás a Emma Watson fez um discurso lindo e emocionado para a ONU, falando sobre feminismo, desbancando preconceitos sobre o tema e falando sobre como isso afeta homens e mulheres e como todos devem se envolver nas mudanças necessárias:

não por coincidência, hoje surgiu um site, com a logo do 4chan, ameaçando expor fotos nuas da atriz. pra mim, fica claro que as duas coisas têm relação. em uma notícia, encontrei mensagens de usuários do 4chan dizendo que “essa putinha feminista” vai ter o que merece. é 2014 e mulheres ainda são humilhadas por serem fortes e ameaçadas por serem feministas. é 2014 e as pessoas ainda acham que expor a intimidade de uma pessoa, famosa ou não, é de interesse público e que “se não quisesse que outras pessoas vissem, era só não fazer”.

nenhuma mulher deveria ser impedida de  tirar fotos do jeito que ela bem entender. se ela quiser que essas fotos sejam divulgadas para o grande público, existem revistas e sites especializados nisso. se não foi a escolha dela, talvez ela só queria tirar a foto para um parceiro/a ou, vejam só que inacreditável, porque era algo que ela queria fazer para ela mesma.

no fim das contas, talvez não vazem as fotos. mas o mais horrível, por enquanto, não é nem isso: é perceber que tornar o corpo feminino algo vergonhoso e a desapropriação dos direitos da mulher ainda são respostas vistas como válidas contra a luta pelos direitos iguais. um discurso apaixonado sobre como o mundo ainda não é um lugar justo para as mulheres é respondido com violência. tá tudo errado.

ps: tem um texto muito legal da Chez Noelle sobre o caso da Jennifer Lawrence que ainda se aplica a esse caso e muitos outros.

Sam Pepper e por que precisamos de feminismo

Sam Pepper, um ex-BBB britânico e atual babaca completo, publicou ontem um vídeo no seu canal do YouTube em que ele veste um moletom bem largo, que faz parecer que ele está com uma das mãos no bolso, enquanto ele está com a mão livre, escondida na roupa. ele se aproxima de mulheres na rua pedindo informações e pega na bunda delas.

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vou repetir: ele se aproxima de pessoas que estão simplesmente vivendo a vida na rua e agarra a bunda delas. e diz que foi outra pessoa, afinal, ele tá com a mão no bolso. ele chama isso de pegadinha. eu chamo isso de  assédio. eu chamo isso de violência. eu chamo isso de escrotice. eu chamo isso de falta de respeito. eu chamo isso de cultura de estupro.

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é claro que desde então a internet explodiu em opiniões de quem ficou revoltado com essa babaquice e quem não vê problema, porque “é só uma piada”. é a mesma desculpa que escutamos quando qualquer pessoa privilegiada faz uma coisa errada e depois diz que é só uma piada – Danilo Gentili “”””sofrendo racismo”””” por ser chamado de palmito, alguém?

vou desenhar bem desenhadinho aqui caso alguém não consiga entender pela escola  da vida: mulheres são humilhadas e diminuídas todos os dias de sua vida simplesmente por serem mulheres. a sexualização das mulheres é válida desde que sirva ao propósito de agradar homens ou servir de piada. pois vejam só: ser humilhada não é engraçado. se alguém me pedisse informações na rua e cuspisse na minha cara, dá na mesma que pegar na minha bunda e postar no YouTube.

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a primeira menina do vídeo (que você pode assistir nesse link sem dar audiência pro canal original do Sam Pepper) se mostra claramente envergonhada com a situação e ele chega a mostrar a “mão falsa” pra ela. ela fica horrorizada e diz “eu não gosto disso” várias vezes. dá pra ver que ela fica desconcertada, como qualquer mulher fica nessas situações de assédio. ele vai lá e dá um abraço nela – o abraço mais esquisito, horrível e enojante que você poderia imaginar.

esses tempos eu li alguém comentando que ser mulher hoje em dia é como ser uma bicicleta em uma cidade feita para acomodar carros. você até consegue encontrar algum espaço, mas você sempre corre mais riscos e passa muito mais tempo que deveria ser necessário tentando se manter em segurança. ainda assim, alguns carros simplesmente negam que você deva ocupar esse espaço e alguns carros querem que você saia da rua de qualquer forma, e para isso, estão dispostos e causar algum tipo de acidente.

nesse caso, o Sam Pepper é uma SUV atropelando uma bicicleta que estava andando na ciclofaixa. mas pelo menos dessa vez, todo mundo está olhando e as medidas cabíveis podem ser tomadas. eu tenho esperança.

 

ano pessoal sem carro

como vocês devem saber, hoje acontece, em várias cidades, o Dia Mundial Sem Carro. eu acho a iniciativa bem bacana, embora esse ano eu não possa participar – afinal, to aqui fazendo meu próprio projeto “ano pessoal sem carro”. em 2013 minha irmã se mudou para São Paulo e no comecinho do ano eu e o Jorge nos mudamos para um apartamento que fica a menos de três quilômetros do trabalho dele. como o carro era meu e da minha irmã e eu trabalho em casa, decidimos vender o carro, cada uma ficar com a sua parte e depois ver o que fazer.

eu e o Jorge sentamos, fizemos as contas e vimos que pra nós, não valia a pena ter carro por enquanto. porque afinal, quando você tem um carro, você não paga só pelas prestações do veículo – tem também seguro, gasolina a preços exorbitantes, estacionamento, eventuais multas, IPVA e a vida fazendo umas piadas sem graça com você. ano passado, por exemplo, eu tava parada num sinal vermelho e veio um espertão a 60km/h pra embucetar a traseira do meu carro. amassou a lataria, estragou o radiador (porque eu bati no carro da frente), gastei uma grana no hospital fazendo exame pra ter certeza que minha coluna não tinha saído do lugar, perdi encomenda porque não conseguia nem me mexer direito de tanta dor e ainda demorei um ano pra conseguir que o cara me pagasse pelo Juizado Especial. delícias de ter carro.

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com todos esses custos embutidos e sem a absoluta necessidade de ter um veículo pra resolver a vida diariamente, resolvemos usar ônibus, bicicleta (no caso do Jorge, já que eu sou uma pata de 26 anos que ainda não sabe andar de bicicleta) e eventuais táxis, quando necessário – e ainda assim a conta sai bem mais barata que ter um carro.

uma coisa que eu percebi desde janeiro é que, tendo veículo, a gente depende dele muito mais que precisa. pega o carro pra fazer qualquer coisinha que precisa resolver na rua, mesmo que seja perto. eu tenho sorte, porque quando é absolutamente necessário  (tipo pra fazer entrega de bolo de casamento de três andares), consigo pegar o carro emprestado com a Debs, com o meu cunhado, com bons amigos dispostos a ajudar.

mas por exemplo, eu sempre ia ao mercado pertinho de casa de carro. é melhor pra quando tem que fazer compras maiores e coisas mais pesadas, mas eu simplesmente aprendi que eu consigo carregar um bom tanto de peso por umas cinco quadras até chegar em casa, e também descobri que tem um ônibus aqui do ladinho de casa que pára do lado de um mercado. às vezes vejo as pessoas me olhando como se eu fosse boba por pegar ônibus pra andar só dois pontos, mas veja só, to ali comprando saco de 5kg de açúcar e farinha sem precisar de carro.

sem o carro, eu também passei a reforçar (um pouco por necessidade, claro) a importância de comprar em pequenos negócios ou negócios mais próximos. sem carro pra ir no Mercado Municipal sempre que eu preciso, eu me obrigo a ir na feirinha de rua que tem a uns dez minutos de casa toda sexta-feira. se eu preciso de comida ou areia pra gata, tem um pet shop aqui pertinho. descobri que tem uma pizzaria do lado de casa que é ótima. tem a lojinha de  cerveja que abriu na frente de casa que tem os preços bons e eu não preciso ir até o centro pra encontrar coisa legal.

mesmo assim, tem algumas coisas que requerem um esforço maior. a gente agora mora em um bairro que só tem mercados mais ~classe A, o que é ótimo para algumas coisas, mas é deprimente quando você vê frutas e vegetais num preço ridículo. então eu simplesmente aprendi a me esforçar um pouco mais: uma ou duas vezes por semana eu pego o ônibus e vou pro centro de Curitiba, onde tem hortifruti, sacolão, padaria e loja de queijos com preços ridiculamente baratos e bons produtos. pago menos que a metade do preço do mercado, compro em negócios familiares e volto pra casa de ônibus.

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outra coisa que eu percebi que me tranquiliza muito mais é que, como eu não estou dirigindo, eu não preciso ficar me estressando com os motoristas estúpidos dessa cidade (e ssassinhora, como tem motorista ruim) e posso simplesmente gastar o meu tempo em trânsito lendo um livro.

eu sei que sou privilegiada porque trabalho em casa e posso fazer meu próprio horário e escolher pegar o ônibus nos horários mais vazios

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mas mesmo que não fosse assim, acho que vale a pena repensar um pouco como a gente usa o carro. às vezes você não precisa usar pra tudo que você usa atualmente. às vezes vale a pena pegar um ônibus que demora dez minutos a mais e não ter que procurar vaga e nem pagar por estacionamento. às vezes vale a pena andar um pouquinho pra resolver alguma coisa na rua porque, ué, andar faz bem e ainda é de graça. muitas vezes eu sinto falta de ter um carro, mas pelo menos hoje em dia eu sei que não preciso de um pra resolver tudo que eu preciso.

5 receitas pra te salvar

depois de algumas semanas de Curitiba achando que era uma cidade feliz que não sabe o que é inverno, estamos entrando na primavera de novo com frio – com ele, a preguiça eterna de uma mente com sinusite. pois bem, esse post é pra dar ideia pra quando você tá naquela pregs absurda e com zero criatividade.

aqui em casa quem cozinha normalmente é meu namorado – eu já trabalho na cozinha o dia inteiro e ele é bem melhor nas panelas do que eu, mas às vezes eu dou uma folga pra ele (ou simplesmente to com preguiça de lavar louça depois, já que aqui o “se eu cozinho eu não lavo” impera e eu inevitavelmente acabo com uma pia cheia de louça pra lavar). como eu não sou lá a maior especialista em pratos salgados, eu dependo de algumas receitas boas, fáceis, simples e deliciosas pra me salvar nesses dias, e acho que elas podem salvar vocês também : )

* frango com limão rosa e páprica

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a receita e esse prato lindo por favor alguém me dá são do Moldando Afeto. o negócio é rápido, fácil e fica muito saboroso. o frango não fica seco, o molhinho (que o forno faz sozinho, sem nenhum esforço) é uma delícia pra comer com arroz, é uma receita muito fácil. fica bem bom com arroz basmati (que eu acho mais saboroso que o arroz branco e cozinha super rápido) e uma saladinha. dez minutos na cozinha e você deixa tudo pronto, o resto o forno resolve – quase uma refeição de 15 minutos do Jamie Oliver, mas essa eu juro que dá pra preparar em 15 minutos de verdade.

* nhoque de ricota com molho amanteigado

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nhoque. manteiga. limão. tomilho. não tem o que dar errado. essa receita é do maravilhoso Technicolor Kitchen e eu já fiz muitas vezes. o nhoque é super rápido de fazer (a parte mais demorada é fazer os rolinhos e cortar, mas, sinceramente, eu acho super divertido fazer isso), o molho é super simples e absolutamente delicioso – e dá pra fazer com qualquer outro molho que você tiver em casa/quiser fazer, claro. eu sempre esqueço de fazer isso, mas sempre dá pra dobrar a receita e congelar o que sobrar pra ter nhoque prontinho pra quando bater o desespero : )

* frango com 40 dentes de alho

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eu sei que o nome é um pouco assustador, mas juro de pé junto que fica bom. o alho cozinha por  bastante tempo, derrete e vira parte do molho desse frango delicioso. é claro que fica com bastante sabor de alho, mas não é uma coisa “eca, tem alho demais nessa parada”, é tipo “NOSSA QUE MOLHO MARAVILHOSO TEM ALHO AQUI, NÉ?”. essa receita demora um pouquinho pra ficar pronta, mas o fogão faz todo o trabalho, você só tem que ter um pouquinho de paciência. a receita rende pra caramba, mas sempre dá pra fazer menos ou fazer a quantidade inteira e congelar o que sobra, né. sem drama, só muito alho e amor.

* ovos no purgatório

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na verdade eu vou admitir que to compartilhando a receita mas, quando eu fiz esse prato, eu fiz meio na raça, no xablau. mudei alguns dos temperos, fiz com tomate pelado em lata em vez de tomate “de verdade” (se bem que acho melhor não fazer com molho/extrato de tomate, porque é legal que fiquem pedacinhos do tomate, sem dizer que fica muito mais gostoso), mas é basicamente isso: você faz um molho de tomate bem encorpado, apimentado e saboroso, joga uns ovos lá no meio, deixa a clara cozinhar e a gema ficar molinha, pega um pão crocantinho e gostoso e come potiando o pão nesse molho maravilhoso. é bem feliz, bem rápido e bem simples.

* focaccia di recco

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ok, novamente, tenho que admitir que to meio que mentindo. eu nunca fiz essa receita aqui em casa – a gente já comeu isso umas quinze vezes e sempre foi o Jorge que fez, mas é tão fácil e tão rápido e requer tão pouca prática que até eu conseguiria fazer sem a supervisão de um adulto, juro. isso aí fica ridículo de bom recheado com queijo e fazendo um “sanduíche” com rúcula, como ele ensina no vídeo, mas também dá pra usar como massa de pizza ou fazer a focaccia recheada com o que você bem entender, porque a massa sempre fica crocante, saborosa e linda. a massa rende bastante e sempre rola fazer uma sobremesinha com recheio de❤ goiabada❤ e queijo❤ – mas também dá pra guardar o restinho da massa na geladeira e usar outro dia. ah, a massa só leva farinha, azeite e água (é ótima praqueles dias que você não tem porra nenhuma na despensa), então é só fazer o recheio sem queijo que vira uma pizza/focaccia linda, deliciosa e vegana : )

ps: todas as fotos do post são dos posts originais, devidamente linkados!

ps2: se alguém quiser alguma das receitas e tiver alguma dúvida ou não ler em inglês, avisa nos comentários que eu traduzo/ajudo ;)

vai ter sim, se reclamar vai ter dois

tem gente aqui que me conhece do deborices, gente que me conhece daqui mesmo, gente que lembra da época do fashion descontrol, gente que veio parar aqui depois de ler o novo deborices e sabe o que isso quer dizer? que eu já tive blog pra cacete.

não é que eu seja vira casaca nessa questão, veja, o meu problema é sempre o mesmo: eu realmente me importo demais mesmo com o que as outras pessoas vão dizer, o tempo todo. sofro as dores do mundo nisso e tento todos os dias acordar e prometer pra mim mesma que não vai ser assim, mas nunca é.

nesse pacote de sofrimento desnecessário entram pequenas coisas que eu posto no blog, como looks do dia e artigos de moda (que eu adoro). a moda, veja você, pra mim é uma arte desprezada exatamente por ser feminina. a Ju me mandou um texto sobre isso inclusive e eu concordei de cabo a rabo. o caso é que no mundo da pintura ou da gastronomia nós temos homens notáveis então essas são consideradas artes legítimas. mas a moda sempre foi muito mais sobre mulheres, logo sendo associada a futilidade. quando você analisa de perto não tem muita diferença em usar cores e formas pra se expressar em uma tela ou nas suas roupas, né?

mas mesmo que a gente racionalize algo é difícil convencer o coração a parar de se sentir mal e eu, sim, me sentia fútil postando look do dia, me sentia malzona mesmo. ainda me sinto às vezes. mais ainda porque pessoas cuja inteligência eu realmente admiro vivem falando coisas contra tirar fotos de você mesma e quando eu ouço essas pessoas me sinto mais burra segundo a avaliação delas. então, por não saber lidar com isso, deletava os blogs que tinha, recomeçava e, quando via, tava fazendo look do dia de novo e me sentindo burra de novo… vocês entenderam, né? um ciclo.

acontece que chega uma hora que ser feminista significa saber libertar você de você mesma. por exemplo, eu gosto de moda e ninguém tem nada a ver com isso. eu posso me permitir isso sem me entregar a dicôtomia do burra mas bonita x feiosa mas inteligente. eu posso me permitir criar o belo enquanto leio meu Guimarães Rosa sem ninguém ter nada com isso.

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mas daí quando você resolve parar de se importar acontece uma coisa engraçadissima: você passa a ser o incômodo. você incomoda com o fato de que quando você tira uma foto de você mesma você se sente bonita, você incomoda porque mulher empoderada incomoda. mulher segura de sí incomoda.

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e não precisa ir muito longe pra ter exemplo disso.

veja, é um caminho longo, algo do qual eu não me livrei totalmente ainda e nem sei se vou me livrar, mas é um exercício ótimo. afinal, um homem pode passar sua vida sem se questionar se ele é bonito e adequado a sociedade, mas a mulher… pra gente é mais difícil porque nós somos cobradas a sermos bonitas mas ensinadas que achar que você atingiu essa beleza é uma coisa muito feia. e a gente é ensinada assim tão profundamente que a gente também tem que se sentir péssima, mal, acabada quando alguém elogia a gente pela escolha de roupa, pela cor do cabelo ou qualquer coisa assim. a gente não pode se gostar porque se gostar significa que sua opinião é que você tá ótima e que quando alguém tentar te controlar pelo seu peso ou escolha fashionista você pode falar ‘foda-se’ e não deixar-se dominar.

daí vem uma outra corrente que diz que o look do dia é buscar aprovação e, sabe, algumas meninas realmente fazem por esse motivo. mas o que há de errado, por que devemos nos sentir mais burras ou piores por querermos uma aprovação de vez em quando? não é o que todo ser humano quer? um elogio? um abraço? fomos condicionadas a buscar por isso e agora vamos tacar pedras nas irmãs que fazem abertamente?

e tem outra: nem todo mundo faz pela aprovação. eu já fiz pela aprovação, sinto bem a diferença. quem faz pela aprovação não usa o que gosta. eu faço porque, oras, porque eu acho que eu me visto bem pra cacete e eu quero mostrar. quem escreve pode querer ser lido. quem canta pode querer ser ouvido. e quem tem como passatempo se vestir pode querer fotografar isso. isso não é tao difícil de compreender, né?

então, eu digo assim: vai ter look do dia no meu novo blog, vai sim. se reclamarem vai ter todo dia só pra provocar. só pra eu sambar na cara de quem acha que pode controlar meu corpo e como eu o adorno e o fotografo e quanto prazer eu tenho em ver a minha figura. só pra mostrar que você não manda em mim, não. se quiser me chamar de burra e superficial por isso, eu te digo: superficial é você que viu uma foto minha e já acha que sabe tudo sobre mim. posso ser mais burra em algumas coisas e mais inteligente em outras mas sobretudo sei que não é uma foto minha me amando que vai definir esses meus traços, mas todo um conjunto de outras coisas que não te dizem respeito. aliás eu nem tenho obrigação de ser isso ou aquilo só pra te agradar.

e minha opinião sobre look do dia é a mesma que eu tenho sobre cabelo colorido, sobre sexo, sobre casamento gay, sobre drogas, sobre dar pra cidade inteira, sobre usar uma mini saia do tamanho de um cinto e um top bem anos 90, sobre fazer scarnification e botar um chifre no meio da sua cara, sobre largar seu emprego em uma grande corporação e ir viver nas cavernas ou viajar o mundo, sobre não ter filhos, sobre ter dez filhos, sobre tudo que você faz consigo mesmo nessa vida: você não gosta, amigo? não faz. mas não vem mandar no meu corpo nem do mais ninguém. supere suas neuras e me deixe viver.

vai ter look do dia sim. se chorar vai ter dois, três, quatro, cinco mil. eu vou me empoderar sambando na avenida se for isso que eu quiser. beijo pro recalque.

stop

(e eu já postei o primeiro no meu blog novo.)