sobre empatia com o que não é pra você

hoje eu tava lá rolando o facebook casualmente quando vejo que um amigo curtiu uma publicação de uma mulher falando que acha uma frescura o desafio do #stopthebeautymadness: segundo ela, é por isso que tratam o feminismo como desnecessário e chato. eu acho muito louco como hoje em dia você precisa ver algo na internet e imediatamente formar e emitir uma opinião sobre o assunto. normalmente, se você gosta ou acha ok, o silêncio é o caminho. se você achou uma besteira, o jeito é fazer um post descendo o cacete no desafio/causa/opinião do amiguinho.

"discordo da sua opinião e você está errado e merece morrer" (INTERNET, todo mundo na)

“discordo da sua opinião e você está errado e merece morrer” (INTERNET, todo mundo na)

pois vejam só, eu não participei do desafio – apesar da Debs ter me indicado – porque, bem, em 90% do tempo eu não uso maquiagem. eu não me sinto mal sem maquiagem e achei que eu não teria muito a dizer sobre o assunto que ela tratou com tanta delicadeza e lucidez. mas aí eu li isso e comecei a pensar que talvez a mulher que escreveu isso também se sente bem na própria pele sem maquiagem ou até mesmo detesta usar maquiagem.

só que esse desafio foi feito para trazer conscientização em um mundo em que as meninas sofrem pressão para “serem bonitas” (ou seja, usarem maquiagem diariamente e fazer chapinha) quando ainda nem entraram no colegial. esse desafio foi feito pras meninas de dez a vinte anos que curtem dezenas de blogueiras de moda no instagram que só postam foto de look do dia com a pele impecável em um ângulo milimetricamente calculado. esse desafio foi feito para as jovens mulheres que acompanham blogs e páginas de rainhas do fitness que aparentam ser perfeitas. esse desafio foi feito pra mostrar que não tem nada de errado em gostar de maquiagem, desde que esse não seja o único jeito que você aprendeu a se gostar.

talvez a pessoa que descreveu o desafio como desnecessário e fútil nunca teve um colega de trabalho perguntando se ela tava doente só porque tava sem maquiagem. talvez essa mulher nunca foi uma adolescente que desenvolveu distúrbios alimentares porque via imagens de mulheres inatingíveis na mídia e ela não conseguia se encaixar. talvez essa mulher não entenda que o desafio não é simplesmente postar uma foto sem maquiagem, e sim conseguir ver a própria beleza além das máscaras. a pressão para as mulheres se encaixarem em um modelo de beleza existe e está muito vivo e forte na internet, thankyouverymuch. por isso é importante que formadoras de opinião, amigas e modelos de comportamento mostrem que têm marcas de espinha, olheira, aquela espinha que apareceu na ponta do nariz sem ser convidada, aquela falha na sobrancelha ou alergia no rosto.

porque sabe, eu nunca apanhei com lâmpada fluorescente na Augusta mas eu sei que não posso negar que homofobia existe e mata. eu nunca passei fome pra emagrecer e me encaixar num padrão, mas sei que não posso sair dizendo que quem sofre de anorexia é fútil. eu nunca fui estuprada, mas isso não me dá o direito de achar que outras mulheres também nunca foram ou que não merecem respeito por isso. empatia com o que não tem nada a ver com você mas é importante para outras pessoas não custa nada, não dói e só faz bem.

um desafio simples para trazer consciência à beleza feminina é uma ferramenta para o empoderamento e ao aumento da auto estima de milhares de mulheres que acordam todos os dias e se olham no espelho e se acham gordas, com a pele ruim e o cabelo imperfeito porque foi isso que elas aprenderam a vida toda. e se você não consegue enxergar como isso é importante e tem a ver com feminismo, tá faltando empatia, compreensão do que é futilidade e um pouco de reflexão sobre o mundo em que as mulheres vivem – e não só o que você percebe à sua volta.

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2 pensamentos sobre “sobre empatia com o que não é pra você

  1. A internet é isso, aí, né, gata? Todo mundo acha que pode ter opinião sobre qualquer coisa que o outro diz – e que esta precisa ser SEMPRE contra ou à favor – do que quer que seja. Não existe moderação, educação, meio termo, não existe mais discernimento desde que o Zuckerberg nos permitiu cagar pros bons modos em mais de 140 caracteres – liberando, inclusive, o uso de imagem para tal. HUAHAUHAUAHUAHUAH! Li TUDO o que vc escreveu recentemente, tenho amado muito o blog! Já que podemos também distribuir um pouco de amor, vim aqui fazer minha parte! =)

    Um beijão!

    • Ericka, no meio de todas as coisas ruins que existem na internet, comentários queridíssimos como o seu me lembram por que vale a pena escrever e se expor ❤

      volte sempre que a casa tá sempre aberta pra gente amável! 🙂

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