Eu, Bridget Jones

Hoje pipocaram imagens no Facebook, Twitter, Portais de Notícias, acerca do novo visual de Renée Zellweger. A eterna Bridget Jones teria exagerado no Botox e choveram declarações de que está irreconhecível, horrível, de que onde já se viu estragar o rosto dela desse jeito.

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Mas não vi nenhuma entrevista com Renée dizendo que este era o resultado que ela queria. E se for? Ok, a despeito das preferências pessoais, o que importa é que ELA esteja feliz. Por mais que as feições dela tenham mudado bastante, se você olhar direitinho, não ficou ruim assim. A princípio sempre rola aquela rejeiçãozinha, porque sabemos como ela era e é num primeiro momento pode parecer chocante ver uma mudança supostamente drástica, mas que se analisarmos a linha histórica dela nem é tão impressionante assim.

Inclusive se colocassem uma foto da Renée na frente de alguém que nunca tenha a visto, essa pessoa não conseguiria apontar o problema no rosto dela. Claro que pioram a situação colocando lado a lado fotos da época do lançamento de Bridget Jones (2001) e de ontem (20/10/2014). Gente, são 13 anos de diferença! É óbvio que ela está com uma aparência mais velha, porque deeeeeerrrrrr, ela está mais velha.

Além disso, eu particularmente acho que o que mais impressiona nem é o botox, mas o fato que a maquiagem não colaborou, principalmente com sobrancelhas por tirar. Além da blefaroplastia, plástica nas pálpebras, que deu uma mudada no olhar dela.

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E o buraco mais embaixo: vai que nem ela gostou da cara nova dela? Vai que ela só foi até o evento por causa de algum contrato publicitário quando o que mais queria era estar em casa, com um cobertor na cabeça e se afundando de sorvete enquanto espera que seu rosto volte lentamente ao normal?

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Levante a mão quem nunca passou raiva no cabelereiro. Eu mesma já saí urrando várias vezes de salões, seja de cortes desastrosos de cabelo, seja de sobrancelha mal tirada. A massagista que te deixa roxa na véspera de você ir para a praia com as melhores amigas. O bronzeamento artifical que te deixa laranja um dia antes de uma festa importante. Todo mundo tem uma história dessa para contar, acredite em mim.

O que não pode acontecer é a gente deixar de vivem por uma coisa dessas. Apontar o dedo para a amiguinha aparentemente bizarra sem saber o que está por trás da história dela não ajuda nada, muito pelo contrário. Em uma época de suicídios em massa, inclusive de artistas conhecidos, me choca a rapidez com que as críticas afloram sem considerar a pessoa que está do outro lado.

E nem precisamos ir muito longe. Essa semana a Globeleza ficou sabendo pela mídia que foi afastada do cargo e está super deprimida com os comentários preconceituosos deixados nas matérias a respeito.

E sabe, não adianta você consolar uma amiga passando por uma situação dessas e ficar apontando o dedo e rindo quanto a mesmíssima coisa acontece com alguém nem tão próximo. Tá sobrando individualização e faltando consciência de indivíduo nesse mundo.

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Me liga, Renée. Eu te entendo.

vai ter sim, se reclamar vai ter dois

tem gente aqui que me conhece do deborices, gente que me conhece daqui mesmo, gente que lembra da época do fashion descontrol, gente que veio parar aqui depois de ler o novo deborices e sabe o que isso quer dizer? que eu já tive blog pra cacete.

não é que eu seja vira casaca nessa questão, veja, o meu problema é sempre o mesmo: eu realmente me importo demais mesmo com o que as outras pessoas vão dizer, o tempo todo. sofro as dores do mundo nisso e tento todos os dias acordar e prometer pra mim mesma que não vai ser assim, mas nunca é.

nesse pacote de sofrimento desnecessário entram pequenas coisas que eu posto no blog, como looks do dia e artigos de moda (que eu adoro). a moda, veja você, pra mim é uma arte desprezada exatamente por ser feminina. a Ju me mandou um texto sobre isso inclusive e eu concordei de cabo a rabo. o caso é que no mundo da pintura ou da gastronomia nós temos homens notáveis então essas são consideradas artes legítimas. mas a moda sempre foi muito mais sobre mulheres, logo sendo associada a futilidade. quando você analisa de perto não tem muita diferença em usar cores e formas pra se expressar em uma tela ou nas suas roupas, né?

mas mesmo que a gente racionalize algo é difícil convencer o coração a parar de se sentir mal e eu, sim, me sentia fútil postando look do dia, me sentia malzona mesmo. ainda me sinto às vezes. mais ainda porque pessoas cuja inteligência eu realmente admiro vivem falando coisas contra tirar fotos de você mesma e quando eu ouço essas pessoas me sinto mais burra segundo a avaliação delas. então, por não saber lidar com isso, deletava os blogs que tinha, recomeçava e, quando via, tava fazendo look do dia de novo e me sentindo burra de novo… vocês entenderam, né? um ciclo.

acontece que chega uma hora que ser feminista significa saber libertar você de você mesma. por exemplo, eu gosto de moda e ninguém tem nada a ver com isso. eu posso me permitir isso sem me entregar a dicôtomia do burra mas bonita x feiosa mas inteligente. eu posso me permitir criar o belo enquanto leio meu Guimarães Rosa sem ninguém ter nada com isso.

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mas daí quando você resolve parar de se importar acontece uma coisa engraçadissima: você passa a ser o incômodo. você incomoda com o fato de que quando você tira uma foto de você mesma você se sente bonita, você incomoda porque mulher empoderada incomoda. mulher segura de sí incomoda.

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e não precisa ir muito longe pra ter exemplo disso.

veja, é um caminho longo, algo do qual eu não me livrei totalmente ainda e nem sei se vou me livrar, mas é um exercício ótimo. afinal, um homem pode passar sua vida sem se questionar se ele é bonito e adequado a sociedade, mas a mulher… pra gente é mais difícil porque nós somos cobradas a sermos bonitas mas ensinadas que achar que você atingiu essa beleza é uma coisa muito feia. e a gente é ensinada assim tão profundamente que a gente também tem que se sentir péssima, mal, acabada quando alguém elogia a gente pela escolha de roupa, pela cor do cabelo ou qualquer coisa assim. a gente não pode se gostar porque se gostar significa que sua opinião é que você tá ótima e que quando alguém tentar te controlar pelo seu peso ou escolha fashionista você pode falar ‘foda-se’ e não deixar-se dominar.

daí vem uma outra corrente que diz que o look do dia é buscar aprovação e, sabe, algumas meninas realmente fazem por esse motivo. mas o que há de errado, por que devemos nos sentir mais burras ou piores por querermos uma aprovação de vez em quando? não é o que todo ser humano quer? um elogio? um abraço? fomos condicionadas a buscar por isso e agora vamos tacar pedras nas irmãs que fazem abertamente?

e tem outra: nem todo mundo faz pela aprovação. eu já fiz pela aprovação, sinto bem a diferença. quem faz pela aprovação não usa o que gosta. eu faço porque, oras, porque eu acho que eu me visto bem pra cacete e eu quero mostrar. quem escreve pode querer ser lido. quem canta pode querer ser ouvido. e quem tem como passatempo se vestir pode querer fotografar isso. isso não é tao difícil de compreender, né?

então, eu digo assim: vai ter look do dia no meu novo blog, vai sim. se reclamarem vai ter todo dia só pra provocar. só pra eu sambar na cara de quem acha que pode controlar meu corpo e como eu o adorno e o fotografo e quanto prazer eu tenho em ver a minha figura. só pra mostrar que você não manda em mim, não. se quiser me chamar de burra e superficial por isso, eu te digo: superficial é você que viu uma foto minha e já acha que sabe tudo sobre mim. posso ser mais burra em algumas coisas e mais inteligente em outras mas sobretudo sei que não é uma foto minha me amando que vai definir esses meus traços, mas todo um conjunto de outras coisas que não te dizem respeito. aliás eu nem tenho obrigação de ser isso ou aquilo só pra te agradar.

e minha opinião sobre look do dia é a mesma que eu tenho sobre cabelo colorido, sobre sexo, sobre casamento gay, sobre drogas, sobre dar pra cidade inteira, sobre usar uma mini saia do tamanho de um cinto e um top bem anos 90, sobre fazer scarnification e botar um chifre no meio da sua cara, sobre largar seu emprego em uma grande corporação e ir viver nas cavernas ou viajar o mundo, sobre não ter filhos, sobre ter dez filhos, sobre tudo que você faz consigo mesmo nessa vida: você não gosta, amigo? não faz. mas não vem mandar no meu corpo nem do mais ninguém. supere suas neuras e me deixe viver.

vai ter look do dia sim. se chorar vai ter dois, três, quatro, cinco mil. eu vou me empoderar sambando na avenida se for isso que eu quiser. beijo pro recalque.

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(e eu já postei o primeiro no meu blog novo.)

Chifrudaney

Britney Spears foi traída, um dos maiores escândalos da semana. o bafafá foi gravado e, para proteger sua filhota, Spears pai bateu o pau na mesa e comprou os direitos autorais da filmagem. agora quem reproduzir vai ganhar um amigo processinho.

 

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mas é claro que a história vazou e, desde então, só nisso se fala. and here comes a twist: enquanto todo mundo esperava que Britoca ficasse em casa comendo um pote de sorvete e cantando “all by myself don’t wanna be” ela prova que, bem, não é bem por aí:

e depois nos ensinou exatamente como superar dias ruins em um maravilhoso vídeo que você assiste clicando aqui.

como esse é o caso da semana (fora o das fotos da J. Law pelada sobre o qual a Noelle já disse tudo que é necessário, claro), eu resolvi dar meus dois centavos. e eles são: obrigada, britney, por não se fazer de vítima. porque sabe, eu já fui chifruda, quase todas minhas amigas já foram chifrudas, chifre acontece, somos todas chifrudasney como você – mas não precisamos nos definir por isso.

eu sempre achei curioso como ser traído é considerado uma vergonha porque, bem, você é a vítima. quem deveria ficar com vergonha não é o traídor? ter vergonha de ser desleal? de não poder ser confiável?

e a coisa fica mais esquisita quando é uma mulher super power celebrity tomando um par de chifres: a reação do público é “nossa, como pode, uma mulher maravilhosa dessas tomando chifre… que será que aconteceu? coitadinha”. isso não só parte do pressuposto que a vergonha é do traído mas também de que chifre é algo que você toma quando merece porque, veja, se fosse gorda, sem graça e escrota a gente entendia, mas uma Britney tomar chifre choca.

a gente naturaliza as traições como uma válvula de escape masculina para buscar algo que falta, algo que supostamente não poderia faltar no relacionamento com uma mulher perfeita. e sabe o que falta num homem que põe chifre?

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pra mim isso é válido em todo tipo de deslealdade, seja romântica, com amigo, com a família, com o emprego – principalmente a parte da coragem. quando você precisa mentir e trair pra fazer algo que quer, quando precisa ser escondido é porque por algum motivo você não tem coragem de assumir seus reais desejos. a questão não é beijar ou fazer sexo com outra pessoa, mas é sair do combinado, não sabe manter a palavra, ou seja, prometer algo que você não está disposto a doar.

falo isso com o maior dos conhecimentos de causa porque chifre já levei e já presenteei. em ambas as vezes reconheço um belíssimo caso de falta de coragem por parte do chifrador. percebam, eu era adolescente, inconsequente e meio escrota quando fiz. criei mil razões em minha cabeça pra fazê-lo “estou apaixonada verdadeiramente”, “estou amando”, “o cara que eu trai é um escroto e já me sacaneou” e, sabe, deborinha adolescente, essas não colam. se o cara é um escroto, termina. tá amando? vai ser feliz sem enganar ninguém. não traia. não seja desleal. tenha coragem de assumir quando você quer uma coisa e quando não quer, abrace as consequências e não magoe ninguém no processo. simples assim.

não entender que o traídor é sempre apenas um covarde é também uma roubada que faz a gente se culpar quando é traída. e, believe me, todas podemos ser traídas. na minha vez eu inventei mil defeitos em mim pra justificar: “estou gorda”, “estou desinteressante”, “sou burra”, “sou sem graça”.

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– fizeram algo errado comigo, logo a culpa deve ser do brigadeiro a mais que eu comi, ctza.

enfim, o mais triste é o quanto essa questão da traição é reduzida a mais uma ferramenta de controle da sexualidade da mulher. quando uma mulher é traída a gente espera que ela chore por não se sentir suficiente – afinal tem de ser perfeita para ser merecedora de um homem. mas quando um homem é traído, a gente espera que ele seja violento pra defender sua honra, afinal ele tem posse sobre a mulher e isso foi maculado.

ao mesmo tempo que está rolando essa história da Brit, também rola por aí no universo negro do whatsapp (pior que deep web) um revenge porn pesadíssimo do cara que pegou a mulher com outro na cama e encheu a lata dela. e, sabe, tá tudo errado. tudinho. porque mulher nenhuma por motivo algum no mundo merece apanhar.

bater em uma mulher é só renovar o voto de posse que os homens pensam ter sobre ela. traiu? tá errada, tá escrota. merece uma conversa séria, talvez um término de relacionamento, tem que sentar no cantinho ali pra pensar com calma sobre a cagada que fez. mas quando você reage com violência à traição demonstra um sentimento de posse sobre o outro. e pode estar casado faz trinta anos, amigo, ninguém é dono de ninguém. o relacionamento, o amor ainda podem acabar. e pode ser que vocês não saibam lidar com isso.

a traição é uma escolha pessoal do traidor. por isso eu penso que ela não merece nenhuma atitude do traído fora a auto preservação e talvez uma dose de humor pra lidar com isso. você não precisa lavar sua honra. você não manchou sua honra. a gente mancha a honra quando a gente faz escrotice com os outros, mas se você foi traído a história só tem um babaca e esse babaca não é você.

por isso que, pra mim, Britoca está tirando de letríssima esse lance de tomar chifre. sem processos, escândalos, violência, dando risada da babaquice que o David Lucado fez, usando o caso como recheio de uma piada em que o palhaço é o covarde que não sabe ter lealdade.

aprendamos que, em vez de ficar sentindo pena de sí mesma quando tomar chifre, a gente tem é que sentir pena da pessoa que poderia ter um relacionamento ou um término de relacionamento bacana, poderia ter tido uma atitude mais sincera contigo mas não teve coragem e optou pelo caminho da mentira. sinta pena de quem não sabe resolver os próprios problemas. e enxergue que você não tem defeito nenhum que mereça deslealdade de nenhum tipo.

ah, e eu não acho que todo traído deve terminar o relacionamento. existem mil histórias, erros acontecem, cada um vive uma realidade. por mais triste e difícil que seja, o que acontece após uma traição só diz respeito aos acordos feitos entre o traído e o traidor. conheço casais felizes que superaram traições, conheço casais infelizes que nunca traíram. não dá pra gente vender uma fórmula de casamento perfeito. mas, caso você resolva dar um pé na bunda do covarde, aprenda a comemorar com a Britney que tudo tem um lado bom.

Let it go, Let it go

Esses dias eu vi uma entrevista da Demi Lovato (prima amada <3) e fiquei matutando no meu cantinho. Perguntaram para ela o motivo dela ter parado de seguir a Selena Gomez no Twitter, revelando assim o fim definitivo da amizade entre as garotas, sendo que elas eram amigas de infância, inseparáveis até a adolescência.

E ela respondeu simplesmente que não aconteceu nada, que é o tipo de coisa que acontece.

E como acontece. Quem nunca perdeu um amigo que atire a primeira pedra. E não, não estou falando de pessoas queridas que por um motivo ou outro acabam falecendo, mas sim daquelas pessoas que tanto gostamos, amamos, trocamos conversas fiadas e que de repente, ao pensar, acabaram ficando no passado.

Muitas são as frases de auto-ajuda de Facebook nesse sentido. Ai, amizade verdadeira é isso. Ai, amizade verdadeira é aquilo. Balela. Amigo a gente sabe de longe quem é, não precisa de imagem com bichinhos fofos ou de gifs piscantes para reconhecer quem se importa com você e quem te dá um ombro amigo quando você precisa.

Inclusive, digo que é muito fácil arrumar gente para estar ao seu lado quando você tá na fossa. Problema mesmo é encontrar quem fica do teu lado quando você tá feliz, amando e com um baita sucesso no trabalho. Nessas horas que você vê quem realmente fica alegre por você.

Por várias vezes já me peguei pensando sobre pessoas que passaram por minha vida, cada um com seu jeitinho, suas características, que foram super importantes em algum momento, mas que já não estão ao meu lado. Algumas amizades foram desfeitas na briga, poucas, confesso, mas já aconteceu. Outras, simplesmente acabaram. Cada um seguiu seu rumo, algumas até houve alguma tentativa de reencontro, mas no geral, acabaram mesmo.

O fim de uma amizade dá um sentimento de luto pior que fim de namoro, pelo menos eu acho que dói mais. É sofrimento em etapas: você percebe que a coisa tá estranha, liga ou encontra a pessoa, pergunta se aconteceu alguma coisa, geralmente o outro nega, você finge que tá satisfeito, e voltam para a primeira etapa, porque né, ilusão achar que as coisas vão voltar a ser como sempre foram.

E olha, isso acontece com você tanto no polo ativo quanto no polo passivo.

Obviamente, como a Pri disse aqui esses dias, a gente muda, impossível não mudar. E nisso muitas pessoas não nos acompanham, assim como não acompanhamos outras pessoas.

A questão é ver que não tem nada de absurdo nisso. É meio que uma seleção natural. Você mantém ao teu redor quem te faz bem, assim como os outros também.

Ficam as lembranças, boas histórias. Vai-se a obrigação de querer agradar um bando de gente. E assim a vida segue.

Tá liberado mudar de ideia. Tá tudo bem mudar de ideia.

Até uns 10 ou 15 anos atrás eu não era feminista. Você pode achar que não é muito, mas há 10 anos eu já tinha 28, então, teoricamente já pensava com minha cabeça e com minhas próprias pernas. Eu saí nua em site e brinquei de Lingerie Day na primeira edição desse treco no Twitter. E não era feminista. Mas eu aprendi coisas e mudei de ideias (mesmo que ainda continue sendo julgada por aquelas ideias e ações de 10, 15 anos atrás) e li Lucia Etxebarría e descobri coisas novas. E mudei.

Há quatro anos eu era morena, tinha cabelo crespo e mega curto. Agora tenho louro, liso e comprido e às vezes rosa. E acho que tudo bem, afinal, cabelo é igual grama: cresce. Cabelo é pra brincar. Se ficar ruim, muda, uai.

Ah, eu também era jornalista, tinha uma carreira e tal, fui editora de jornal, revista e blog, fui gerente de projeto. E cansei de ser jornalista. Agora eu não sei muito bem o que eu quero ser, mas, quer saber? Tudo bem. Mesmo que eu não saiba muito o que fazer agora, ter a liberdade de mudar de ideia – e voltar a ser jornalista, se eu quiser ou não, – é um pouco reconfortante.

Mas mudar nem sempre é reconfortante e fácil. Ao contrário, é complicado e muitas vezes, cheio de culpa. Como eu posso ser feminista e participar do Lingerie Day? Como eu posso querer ter filhos uma hora e não querer na outra? Como é que agora eu digo que fico ótima de amarelo se há dois meses eu detestava amarelo? Como eu posso mudar de ideia se isso vai comprometer minha – oh, tão importante – coerência?

Walt Whitman

A coisa mais bacana que aprendi no meu último emprego no Brasil, em que eu tinha um chefe incrível (beijo, Pedro!), era que: tudo bem mudar. Tudo bem tentar algo diferente, não dar certo e voltar atrás. Tudo bem mudar de ideia. Errar faz parte do caminho. Quantos bolos errados você faz até acertar? Quantos textos até acertar o tom? Quantos delineados gatinho errados? Levei 38 anos pra aprender o meu e errei muitos. E continuo errando, depende da pressa. Muitas vezes, pra ser bom em algo, a gente precisa ser ruim. Aí vai treinando, mudando o jeito de fazer, melhorando, até acertar.

Ainda acho que a vida não é sobre se desculpar pelas escolhas erradas e ruins que você faz: é sobre tentar dar o melhor de si e acertar sempre que possível. Mas nem sempre a gente acerta de primeira e, mais do que isso, às vezes consegue exatamente o que queria e diz “putz, acho que nem era isso”.

“Tudo bem mudar de ideia”. Tudo bem. Mesmo que você não seja coerente com o que escreveu/disse/fez ali atrás. Pessoas mudam, o mundo muda. Seja livre.

sobre ser diferente das outras

quando eu era criança, eu era esquisitinha. eu era muito magra (cês não botam fé em quanto biotônico Fontoura já me deram nessa vida), tinha o dente muito separado – uns cinco níveis acima do fofo aceitável socialmente tipo da Madonna – e tinha uma pira muito louca de cortar meu próprio cabelo, então passei boa parte da infância com um cabelo joãozinho bem zoado. pra coroar tudo, eu também não era lá uma criança muito sociável. na escola, eu sempre ficava sozinha lendo na biblioteca no recreio, achava um terror quando tinha trabalho em grupo e sempre era a última a ser escolhida para todo e qualquer esporte.

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mas de algum jeito, eu era feliz assim. meus pais sempre tiveram muito orgulho que eu lia um monte e gostava de música e fazia colagens e era criativa (ok, minha mãe não gostava quando eu rasgava camisetas pra ~ser criativa, mas vamos seguir em frente), e eu achava que isso era legal. até que em algum momento as outras crianças me convenceram que ser esquisitinha não era uma coisa legal. eu era feia, estranha e ninguém quer ser amigo de alguém assim – e imaginem só, como que os meninos iam gostar de mim? não vou nem entrar na discussão de como é louco uma menina de 9 anos ter que se preocupar com esse tipo de coisa, mas foi assim que eu comecei a mudar a minha opinião sobre mim mesma.

eu queria me enturmar, mas eu nunca tive saco pra mudar pra me encaixar nos grupinhos, então na adolescência eu entrei num paradoxo muito louco: eu tinha uma auto estima mais baixinha que o nível de água de piscina infantil, mas eu achava que eu era melhor que as outras meninas. eu era uma menina diferente das outras.

eu achava que porque eu escutava música indie e conhecia bandas que ninguém ouvia, eu era melhor do que as meninas que gostavam de música pop. eu achava que porque eu não usava roupas “de menininha”, eu era muito mais legal que elas. eu não me importava com meu cabelo, eu não fazia as unhas e eu não ligava pra essas coisas que as meninas iguais às outras davam importância e isso obviamente significava que eu era mais inteligente que elas, que perdiam tempo com banalidades.

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prbns por ser especial

só que uma hora isso mudou. quando eu tinha uns 18 anos eu achei que seria legal usar uma saia rodada de cintura alta. eu achei que era a coisa mais fofa usar esmalte colorido com glitter. eu achei que era bacana fazer uma trancinha no cabelo e usar como tiara. eu achava o máximo usar batom rosa todo dia. eu achei que era uma boa ideia começar um blog pra falar dessas coisas com uma amiga. só que aí eu entrei em outra armadilha: eu fazia essas coisas e escrevia sobre essas coisas e eu gostava genuinamente de todas essas coisas, mas eu jurava de pé junto que eu fazia isso diferente das meninas iguais às outras.

porque vejam só, eu gostava da saia de cintura alta que tava na moda, mas eu comprei ela num brechó, eu não caía na armadilha capitalista fútil de comprar roupa de marca. eu fazia a unha em casa porque, diferentes das outras meninas, eu achava uma besteira gastar dinheiro com coisa besta assim, eu gostava de batom mas eu comprava os baratinhos porque ai, não vou gastar dinheiro com MAC porque isso é coisa das outras, sabe?

mas que merda de raciocínio é esse, julinha?

porque sabe, eu me importava com cabelo e unha e os desfiles de alta costura mas eu sabia que eu fazia faculdade de comunicação, que eu era inteligente, que eu lia bastante, eu tinha personalidade, eu usava as coisas porque eu gostava e não só porque era moda e JAMAIS que eu seria igual às meninas que se importam com essas coisas, umas desmioladas. na época eu estava em um relacionamento que reforçava isso: quando eu comecei a gostar dessas coisas, eu passei a ser uma das outras meninas e eu sentia que precisava me provar, eu precisava esconder que eu gostava dessas coisas  ou pelo menos mostrar que eu gostava de um jeito diferente porque isso não é coisa de menina legal e inteligente, diferente das outras, sabe?

eventualmente eu parei de fazer o blog porque não me divertia mais tanto escrevendo, eventualmente eu fui trabalhar numa confeitaria por umas dez horas diárias de cabelo preso e sem unha pintada e eu entendi que essas coisas que eu gosto não definem quem eu sou. eu sou uma mulher jovem que ama cozinhar e fazer doces, eu tento ser uma boa amiga, eu tento ser gentil, eu tento melhorar a minha mania de dar respostas atravessadas e magoar as pessoas, eu tento ser organizada e eu tento melhorar as minhas falhas. eu gosto de me enfeitar, eu gosto de usar batom vermelho, eu gosto de pintar a unha com glitter colorido quando não estou trabalhando, eu adoro usar vestidos lindos com estampas legais e eventualmente eu gosto de simplesmente usar jeans com moletom com o cabelo todo cagado e com a cutícula enorme. e nada disso muda quem eu sou.

e nada disso me dá o direito de ser sommelier de comportamento e caráter de gente que eu não conheço. porque sabe, grandes bosta se alguém vê filme iraniano enquanto a outra vê comédia romântica hollywoodiana, isso não quer dizer que uma é melhor que a outra. porque se importar com a aparência (ou com coisas que eu considero fúteis ou não essenciais ou bobas) não é ser menos que eu – e se alguém realmente só se importa com a aparência, deve ter uma auto estima meio mal resolvida e a pessoa precisa de tempo pra se descobrir, não de julgamento de quem acha que é diferente e superior a ela (oi, euzinha mesmo).

não se importar com a aparência, desde que isso não afete a sua auto estima e sua auto imagem, também não tem nada de errado. aos poucos a ficha foi caindo daquela coisa mais clichê do mundo: tudo está certo desde que a pessoa faça sem prejudicar outras pessoas nem a si mesma. aí eu lembro de uma coisa que a Jane Fonda falou em uma das entrevistas que eu falei aqui, que quem você é de verdade provavelmente se parece mais com quem você era aos oito anos de idade.

e realmente, naquela época eu julgava menos as pessoas e tenho a impressão que também me importava menos quando era julgada. estou tentando voltar um pouquinho pra esse ponto – mas dessa vez, sem me esconder embaixo da mesa da sala pra cortar meu cabelo escondida.

Educação e canja de galinha

Na primeira chamada para a notícia do menino que perdeu o braço ao ser atacado por um tigre em um zoológico aqui do Paraná, choquei. Aí resolvi ler a matéria completa e – olha só – parece que faltou bom senso. E não, não foi do tigre. Que estava lá, em uma situação já estressante o suficiente (vai por mim,você também ia odiar ficar dentro de uma jaula enquanto crianças passam, chamam e gritam o dia inteiro).

O problema ali não foi falta de segurança – duas cercas e placas dizendo “perigo, não ultrapasse” já davam o recado. O problema foi o “meu filho pode tudo”.

Pensa comigo: se aos 11 anos “tá tudo bem” desrespeitar algumas regras, levar comida no bolso para fazer algo que é proibido, o que que essa criança vai fazer adulta? E nem tou falando especificamente desse menino – porque esse é um caso que caiu na boca do povo. Vai, confessa: com certeza você tem um conhecido/amigo/parente que acha que “é criança, deixa, tá tudo certo”.

Vem cá: não, não está tudo bem. Se de pequeno não se apreende a respeitar normas de segurança e regras básicas, como é que vai respeitar outro ser humano? Quando é que, adulto, vai entender que não está tudo bem beber e dirigir? Quando é que vai aprender que o não de uma mulher na balada realmente quer dizer não?

Longe de mim querer ditar regras para a educação do filho dos outros. Não é uma tarefa fácil, desgasta mais do que a gente imagina – mas não pode ser irresponsável. Precisa passar pra criança o mínimo de respeito e limites. É a velha história: a minha liberdade termina quando começa a do outro. E isso se aprende desde pequenininho.

Não, educação e canja de galinha nunca fizeram mal à ninguém. A canja conforta, alimenta, ajuda a curar gripes e deixa o estômago quentinho. Mas em tempos em que a gente pode pedir uma canja no delivery ou mesmo comprar na seção de congelados do mercado (o que não é errado, gente, PLMDDS), precisa sempre lembrar que a educação não é vem tão fácil assim.

Dá pra elogiar sem xingar, dizem

Aí que morreu um humorista fantástico, parece que foi suicídio. Sei que é fantástico porque eu, que não era fã nem conhecia nada do cara, tenho lembranças de momentos da carreira dele que me fizeram perder o ar de rir. E quando você não acompanha o trabalho de alguém e, mesmo assim, esse trabalho chega até você e marca positivamente é sinal que o cara é bom. Isso não se discute, né?

Mas aí que eu vi um texto em homenagem a ele que começava dizendo algo assim “Ele não tinha coluna na Folha nem namorava uma atriz fofinha”, em clara referência ao Gregório do Porta dos Fundos, sabe? Enfim, não eu não acho o Gregório o cara mais inteligente que já pisou no planeta Terra nem a salvação da lavoura. Mas eu acho ele engraçadinho e acho que ele nunca me machucou. Acho que é possível que ele nunca tenha deferido golpes contra o autor do texto, nem contra o Fausto Fanti, que Deus o tenha. Então eu não entendi porque ele foi citado em uma homenagem ao Fausto. Achei até ofensivo que nesse momento, em que o natural fosse lembrar os pontos positivos do Fausto, falar mal do Gregório fosse mais importante.

Que mania besta de achar que pra você provar o quanto você acha algo bom você tem que começar depreciando o que acha ruim, não é? Que que o Gregório tem a ver com isso tudo? Aposto que ele não deve ter ficado feliz e comemorado cantando algo sobre não ter mais concorrência nem nada assim. Que coisa!

Assim, você pode achar o Gregório um mongo. Um boçal. Um idiota. Você tem todo o direito de não gostar dele e ficar aliviado ao fechar o vídeo e não dar audiência. Já fiz isso com uma meia duzia de vídeos mais idiotinhas dele (na minha opinião) e meu braço não caiu nem a polícia me prendeu. Se esse for seu caso, quando o assunto for Gregório, Folha, Porta dos Fundos, a família Duvivier, o novo humor brasileiro, o YouTube… Dai você fala “nem curto esse cara, acho ele ruim por X, Y e Z”. Ou até assume sua parcialidade e fala algo, sei lá “Acho que ele tem cara de sapo e tenho inveja do sucesso dele”. Cada um assume o que sente como quer. Mas desmerecer o trabalho dele e citar a guria que ele namora como forma de prestar uma linda homenagem a um bom humorista… Meu, que lixo.

Dá pra falar bem do Fausto Fanti sem começar falando mal do Gregório.
Dá pra gostar de rock sem começar a falar disso lembrando como funk é um lixo cultural pro seu ouvidinho.
Dá pra ser católico sem falar mal de judeus por aí.
Dá pra gostar do A sem xingar o B pra justificar.

Dá pra ter cérebro e ser coerente e menos agressivo com esse mundo.

Você pode escolher algo pra gostar e gostar e só. Sem odiar o outro. Você pode parar de tratar o mundo como uma enorme partida de futebol em que você precisa escolher um lado pra torcer e encher o outro de porrada. Não precisa ser hooligan, colega. Se não gosta do outro, não da IBOPE pra ele.

Mas quando a gente precisa denegrir a imagem de um pra poder levantar a do outro, isso não é elevar o bom, apenas rebaixar alguém pra destacar outro alguém. E é bem idiota. E um pouco de recalque. O Fausto Fanti merecia ser elevado. Ele era ótimo. Ele não precisa que rebaixem os humoristas em volta pra que ele pareça melhor. E isso é uma puta de uma falta de respeito com o trabalho dele – mais até do que com o do Gregório que continuará tendo sua coluna na Folha e namorando a atriz fofinha independente da sua opinião sobre isso.

Parem com essa mania idiota de precisar tanto achar ódio antes de achar elogios e coisas bonitas, por favor, obrigada, de nada.

Sobre dizer não

Vários são os eventos na vida, seja começo de amizade, de namoro, entrevista de emprego, em que acabamos tendo que nos apresentar rapidamente, fazer uma breve introdução de quem somos. E por mais que muitas pessoas se definam como difíceis ou mesmo como intransigentes, ninguém nunca fala: oi, eu sou uma pessoa que diz não sem problemas. Afinal, porque essa palavrinha sempre nos faz tremer, seja para falar ou seja ao ouvir de alguém.

O não é uma palavra rejeitada, evitada. Parece feio você dizer não a algo ou alguém. É indelicado, dizem as pessoas. Afinal, elas parecem acreditar que são sempre tão incríveis que alguém lhe negar alguma coisa é tido como ofensa pessoal. Você pode ser o maior profissional do mundo, a melhor dona de casa, falar 7 idiomas diferentes, mas se você negar de primeira um convite para ir em qualquer barzinho com a turma, pode apostar que você será o assunto da noite.

Afinal, parece que as pessoas precisam ouvir que você não pode sair porque aquela tua avó que morreu a uns 7 anos tá doente, que você brigou com o namorado e está com a cara inchada de chorar, ou qualquer outra mentira deste nível. Sair porque você simplesmente não está a fim é absurdo, pelo menos em uns 95% dos casos.

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E isso se estende a todos os aspectos da vida.

Quando temos uma casa nova, todos querem ir na sua casa. E sim, você até quer que as pessoas vão lá, quando você as convidar, obviamente. Casa nova é uma bagunça, são caixas empilhadas, deveres acumulados ou mesmo a simples vontade de ficar sozinha. E as pessoas ligam, mandam mensagens querendo ir lá. E o não novamente aparece como uma ofensa pessoal caso você diga a palavra banida.

Quando engravidar e tiver filhos, prevejo o problema potencializado.

Falar não é 10 vezes pior do que falar Voldemort nos livros do Harry Potter. Pessoas fazem caretas. Outras esbravejam, mas ninguém defende o direito de você poder falar uma palavra da qual você não tem medo.

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Por muito tempo tive muita dificuldade em dizer não, por motivos diversos. Aos pouquinhos fui me liberando e hoje em dia tenho muito mais facilidade em dizer não. Mas mesmo assim algumas situações são bem difíceis. Até porque muitas pessoas têm dificuldades em perceber que você cresceu. Que estudou, que trabalha e que tem uma renda. A liberdade e a independência dos outros dói para algumas pessoas.

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E aí aparece o dilema: tacar um não e manter sua opinião ou por várias vezes fingir concordância somente para escapar da enfadonha fuga do não pelos outros. A segunda opção é tentadora, é mais fácil. A primeira, pela dificuldade da negativa, soa como pirraça, como falta de maturidade.

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E eu tenho me mantido forte na primeira. Já ouvi de tudo, desde elogios até gente dizendo que estou mostrando minhas garras. Concordo, afinal, estou mostrando sim minha personalidade, minha opinião. E me afasto de quem não consegue admitir que as pessoas têm direito ao livre arbítrio.

Quebrar a cara faz parte do processo, fazer cara de paisagem, não.

Lorraine Pascale me salvou de me perder

Quando eu casei descobri algo novo sobre mim: eu gosto, bastante de frescurinhas. Super previsível, né: adoro roupa nova, combinar cor e textura, maquiagem bonita e colarzão. Nunca tive a pira do “precisa ser caro”, mas desde que comecei a ser mais independente tenho essa paixão pelo belo. Óbvio que quando eu tivesse minha casa eu iria refletir essa parte de mim.

Sai louca, tacando cor forte nas paredes, comprando cobertas e louças bonitas e, no primeiro dinheirinho sobrado, minha amadíssima batedeira planetária chegou ao seu lar.

Agora, imagina a comunidade assistindo isso na minha casa: eu, que cresci ouvindo “não sabe nem lavar a louça, nunca vai casar”, “esse quarto cheio de roupa jogada, nem parece mocinha” e “queima até arroz essa menina, nunca vai ter jeito”, ali brincando de prateleiras irregulares com enfeites charmosos na sala e batendo bolo de frutas silvestres na planetária? Todo mundo entrou meio em choque. As pessoas iam na minha casa e falavam “serio, você que fez isso?”.

Era demais, as visitas vinham e eu fazia um bolo de morangos com framboesas. Um assado decorado. Um buffet com perfeição. Pra mim, era meu jeitinho de falar “amo vocês, olha a frescurinha que fiz pra amar vocês aqui, tão se sentindo bem amados? Ai, como eu amo vocês”.

Só que, por algum motivo muito louco, na nossa sociedade as pessoas se assustam com a frescurinha, acham meio opressora. Sabe quando tem aquela amiga que sempre se veste bem e todo mundo acha cansativo ficar do lado dela porque é como uma cobrança pra estar igual? Ou aquela que decora ou cozinha: você vai a casa dela e em vez de pensar “uau, olha o que essa linda fez pra mim”, pensa “cacete, e lá em casa eu servindo pão com Doriana, nunca que eu convido essa mulher lá”. Então, todo mundo pensa assim. Todo mundo acha que o mundo fica girando, ali, em volta do próprio umbigo.

Aí começou a ficar desagradável. Comecei a receber convites pra jantar e lá vinha um “Mas ó, é coisa simples, viu? Não é igual seus jantares!”. Convidava e ouvia um “Mas, ó, sem frescura viu? Pode fazer um cachorro quente”. Mano, eu amo cachorro-quente, mas é tão frustrante quando você se anima pra servir seu melhor prato na melhor louça e a pessoa fala “ahhhh, que frescura, cara!”. Serio, não é legal dizer isso. Não digam isso.

Enfim, eu que sou a Rainha Debora do Ouvir aos Outros e Se Importar Demais Bragança e Silva me apaguei um pouco. Parei de cozinhar. Relaxei na decoração. Fui deixando de lado mesmo. Confundi tudo.

Mas a reflexão pode morar nas coisas mais engraçadas. Hoje, liguei a TV no programa da Lorraine Pascale e ela estava ensinando a fazer coisas fabulosas. Coisas que eu olhava e pensava “aí, que demais… Mas não. Não vou fazer, não tenho pra quem fazer isso”. Até que ela disse a frase:

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“Everyone deserves a posh meal once in a while”

Everyone. Todo mundozinho. E todo mundo inclui… Eu. Poxa, Lorraine, obrigada. Dez segundos depois que você disse isso eu percebi que abandonei um dos hobbies mais amados por mim pra não chatear as pessoas com… Me importar demais?

E, sabe, às vezes a gente se importa demais com o que não é pra gente e acha que o que fazemos pra nós mesmos é pros outros. Eu sempre achei que minha casa bonita e bem decorada e meus pratos afrescalhados eram pros outros. Sim, são. Mas não são. São minha forma de me expressar e ser feliz. São pra mim. E não são obrigação – se der preguiça sempre haverá o cachorro quente.

A gente precisa mesmo parar de achar que tem que todo mundo andar na mesma fila. Que a amiga bonita é bonita pra cobrar a gente, e não porque ela gosta de ser assim. Se você se incomoda ou é porque não se permite se embelezar (e permita-se) ou porque não gostaria de ter (então não faça). A casa linda da colega é dela pra ela. Se você se incomoda pode ser porque você quer também (então enfeite sua casa, leia blogs e revistas de Decor – você vai amar) ou porque não se importa e não quer se importar (então simplesmente não se importe). Nós merecemos o que queremos. E não merecemos ter de fazer o que não queremos. Nós precisamos de parar com essa pressão horrorosa – se a gente coloca mais energia em fazer o que gosta em vez de tentar agradar os outros e reparar no que os outros fazem a coisa fica melhor, acredite.

Precisamos parar de achar que os outros fazem pela gente. E parar de se importar com o que os outros vão pensar. Com como vão interpretar. Veja, de tanto me importar com a opinião dos outros eu cheguei a conclusão que um prato rococó com um molho bonito são ofensivos. Poxa, que viagem!

Enfim, eu gosto de ser uma fresca. Eu me amo assim. Tenho amigos que amam também e valorizam quando eu faço isso pra eles. Quem não ama? Bem, pode lidar. A terapia está logo ali para tratar tudo que te irrita. Eu faço, amo e adoro!

E acho que assim que sair da cama (tô de molho proibida de andar por uns dias) estarei na cozinha batendo um belíssimo bolo com chocolate maltado. Obrigada Lorraine por me lembrar do que eu gosto. Receita na imagem pra quem quiser se aventurar ;).

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