Dá pra elogiar sem xingar, dizem

Aí que morreu um humorista fantástico, parece que foi suicídio. Sei que é fantástico porque eu, que não era fã nem conhecia nada do cara, tenho lembranças de momentos da carreira dele que me fizeram perder o ar de rir. E quando você não acompanha o trabalho de alguém e, mesmo assim, esse trabalho chega até você e marca positivamente é sinal que o cara é bom. Isso não se discute, né?

Mas aí que eu vi um texto em homenagem a ele que começava dizendo algo assim “Ele não tinha coluna na Folha nem namorava uma atriz fofinha”, em clara referência ao Gregório do Porta dos Fundos, sabe? Enfim, não eu não acho o Gregório o cara mais inteligente que já pisou no planeta Terra nem a salvação da lavoura. Mas eu acho ele engraçadinho e acho que ele nunca me machucou. Acho que é possível que ele nunca tenha deferido golpes contra o autor do texto, nem contra o Fausto Fanti, que Deus o tenha. Então eu não entendi porque ele foi citado em uma homenagem ao Fausto. Achei até ofensivo que nesse momento, em que o natural fosse lembrar os pontos positivos do Fausto, falar mal do Gregório fosse mais importante.

Que mania besta de achar que pra você provar o quanto você acha algo bom você tem que começar depreciando o que acha ruim, não é? Que que o Gregório tem a ver com isso tudo? Aposto que ele não deve ter ficado feliz e comemorado cantando algo sobre não ter mais concorrência nem nada assim. Que coisa!

Assim, você pode achar o Gregório um mongo. Um boçal. Um idiota. Você tem todo o direito de não gostar dele e ficar aliviado ao fechar o vídeo e não dar audiência. Já fiz isso com uma meia duzia de vídeos mais idiotinhas dele (na minha opinião) e meu braço não caiu nem a polícia me prendeu. Se esse for seu caso, quando o assunto for Gregório, Folha, Porta dos Fundos, a família Duvivier, o novo humor brasileiro, o YouTube… Dai você fala “nem curto esse cara, acho ele ruim por X, Y e Z”. Ou até assume sua parcialidade e fala algo, sei lá “Acho que ele tem cara de sapo e tenho inveja do sucesso dele”. Cada um assume o que sente como quer. Mas desmerecer o trabalho dele e citar a guria que ele namora como forma de prestar uma linda homenagem a um bom humorista… Meu, que lixo.

Dá pra falar bem do Fausto Fanti sem começar falando mal do Gregório.
Dá pra gostar de rock sem começar a falar disso lembrando como funk é um lixo cultural pro seu ouvidinho.
Dá pra ser católico sem falar mal de judeus por aí.
Dá pra gostar do A sem xingar o B pra justificar.

Dá pra ter cérebro e ser coerente e menos agressivo com esse mundo.

Você pode escolher algo pra gostar e gostar e só. Sem odiar o outro. Você pode parar de tratar o mundo como uma enorme partida de futebol em que você precisa escolher um lado pra torcer e encher o outro de porrada. Não precisa ser hooligan, colega. Se não gosta do outro, não da IBOPE pra ele.

Mas quando a gente precisa denegrir a imagem de um pra poder levantar a do outro, isso não é elevar o bom, apenas rebaixar alguém pra destacar outro alguém. E é bem idiota. E um pouco de recalque. O Fausto Fanti merecia ser elevado. Ele era ótimo. Ele não precisa que rebaixem os humoristas em volta pra que ele pareça melhor. E isso é uma puta de uma falta de respeito com o trabalho dele – mais até do que com o do Gregório que continuará tendo sua coluna na Folha e namorando a atriz fofinha independente da sua opinião sobre isso.

Parem com essa mania idiota de precisar tanto achar ódio antes de achar elogios e coisas bonitas, por favor, obrigada, de nada.

Pintar tapetes, porque a idiotice não tem limites

Se tem um recalque que eu tenho na vida, uma inveja profunda mesmo, chama-se: Urban Outfitters. Tenho  inveja descontrolada (oi, Pri) de quem mora em lugares que tenham essa benção. É caro? Mais ou menos. Mas Tok&Stok também é e na UO pelo menos as coisas tem ~personalidade. Minha última obsessão são os tapetes de lá. Me deixam falecida.

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tapetes com preços compráveis e, se não me engano, entrega no Brasil (mas e o medo dos impostos escorchantes?)

Estava ultimamente pensando em fazer uma poupança para comprar um desses tapetes – ia sair o mesmo preço que um desses tapetes cor de cocô que existem por aqui, mesmo com impostos, frete e dores de cabeça. Mas eis que os projetos de pintura e estupidez da Julinha me inspiraram e eu cometi o erro de entrar no Pinterest e buscar as tags RUG DIY DYE.

Estava pronta a merda: descobri que pintar tapete pode sim, pode muito.

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Aí cês sabem, né migs. Fodeu tudo. Quero fazer igual. Se você também, clica na foto e vai pro tutorial.

Eu já to completamente rendida, dizendo por aí que não parece difícil de fazer. Ou seja, deve ser armadilha de satanás do Pinterest mesmo, mas como Juju não foi exemplo o suficiente eu vou tentar. Tenho dois tapetes (um feio creme e um horroroso cinzinha) que serão sacrificados no processo porque acho que melhor correr o risco de ter pelo menos um bonito do que essas atrocidades. A idiotice, meus amigos, não tem limites.

Se você também é uma idiota e acha que tempo dá em árvore, se você também navega no Pinterest e a cada diy pensa  “UAU QUE MARAVILHOSA SARNA PARA ME COÇAR, A VIDA TÁ FÁCIL, VOU FAZER ESSA MERDA, VAI FICAR LINDÃO”, o vídeo de base que eu vou usar é esse abaixo.

How to Make a Hand Painted Chevron Rug from Lia Griffith on Vimeo.

Inclusive porque a santa que ensina a fazer isso usa Chevron, o padrão mais lindo do mundo.

E, aliás, se você não sabe identificar o nome da estampinha que gosta, abaixo mais uma utilidade pública. Obrigada, de nada.

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Direto do blog da Amy Atlas que, aliás, é nossa ídola e nada nos faltará.

Sobre dizer não

Vários são os eventos na vida, seja começo de amizade, de namoro, entrevista de emprego, em que acabamos tendo que nos apresentar rapidamente, fazer uma breve introdução de quem somos. E por mais que muitas pessoas se definam como difíceis ou mesmo como intransigentes, ninguém nunca fala: oi, eu sou uma pessoa que diz não sem problemas. Afinal, porque essa palavrinha sempre nos faz tremer, seja para falar ou seja ao ouvir de alguém.

O não é uma palavra rejeitada, evitada. Parece feio você dizer não a algo ou alguém. É indelicado, dizem as pessoas. Afinal, elas parecem acreditar que são sempre tão incríveis que alguém lhe negar alguma coisa é tido como ofensa pessoal. Você pode ser o maior profissional do mundo, a melhor dona de casa, falar 7 idiomas diferentes, mas se você negar de primeira um convite para ir em qualquer barzinho com a turma, pode apostar que você será o assunto da noite.

Afinal, parece que as pessoas precisam ouvir que você não pode sair porque aquela tua avó que morreu a uns 7 anos tá doente, que você brigou com o namorado e está com a cara inchada de chorar, ou qualquer outra mentira deste nível. Sair porque você simplesmente não está a fim é absurdo, pelo menos em uns 95% dos casos.

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E isso se estende a todos os aspectos da vida.

Quando temos uma casa nova, todos querem ir na sua casa. E sim, você até quer que as pessoas vão lá, quando você as convidar, obviamente. Casa nova é uma bagunça, são caixas empilhadas, deveres acumulados ou mesmo a simples vontade de ficar sozinha. E as pessoas ligam, mandam mensagens querendo ir lá. E o não novamente aparece como uma ofensa pessoal caso você diga a palavra banida.

Quando engravidar e tiver filhos, prevejo o problema potencializado.

Falar não é 10 vezes pior do que falar Voldemort nos livros do Harry Potter. Pessoas fazem caretas. Outras esbravejam, mas ninguém defende o direito de você poder falar uma palavra da qual você não tem medo.

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Por muito tempo tive muita dificuldade em dizer não, por motivos diversos. Aos pouquinhos fui me liberando e hoje em dia tenho muito mais facilidade em dizer não. Mas mesmo assim algumas situações são bem difíceis. Até porque muitas pessoas têm dificuldades em perceber que você cresceu. Que estudou, que trabalha e que tem uma renda. A liberdade e a independência dos outros dói para algumas pessoas.

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E aí aparece o dilema: tacar um não e manter sua opinião ou por várias vezes fingir concordância somente para escapar da enfadonha fuga do não pelos outros. A segunda opção é tentadora, é mais fácil. A primeira, pela dificuldade da negativa, soa como pirraça, como falta de maturidade.

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E eu tenho me mantido forte na primeira. Já ouvi de tudo, desde elogios até gente dizendo que estou mostrando minhas garras. Concordo, afinal, estou mostrando sim minha personalidade, minha opinião. E me afasto de quem não consegue admitir que as pessoas têm direito ao livre arbítrio.

Quebrar a cara faz parte do processo, fazer cara de paisagem, não.

Lorraine Pascale me salvou de me perder

Quando eu casei descobri algo novo sobre mim: eu gosto, bastante de frescurinhas. Super previsível, né: adoro roupa nova, combinar cor e textura, maquiagem bonita e colarzão. Nunca tive a pira do “precisa ser caro”, mas desde que comecei a ser mais independente tenho essa paixão pelo belo. Óbvio que quando eu tivesse minha casa eu iria refletir essa parte de mim.

Sai louca, tacando cor forte nas paredes, comprando cobertas e louças bonitas e, no primeiro dinheirinho sobrado, minha amadíssima batedeira planetária chegou ao seu lar.

Agora, imagina a comunidade assistindo isso na minha casa: eu, que cresci ouvindo “não sabe nem lavar a louça, nunca vai casar”, “esse quarto cheio de roupa jogada, nem parece mocinha” e “queima até arroz essa menina, nunca vai ter jeito”, ali brincando de prateleiras irregulares com enfeites charmosos na sala e batendo bolo de frutas silvestres na planetária? Todo mundo entrou meio em choque. As pessoas iam na minha casa e falavam “serio, você que fez isso?”.

Era demais, as visitas vinham e eu fazia um bolo de morangos com framboesas. Um assado decorado. Um buffet com perfeição. Pra mim, era meu jeitinho de falar “amo vocês, olha a frescurinha que fiz pra amar vocês aqui, tão se sentindo bem amados? Ai, como eu amo vocês”.

Só que, por algum motivo muito louco, na nossa sociedade as pessoas se assustam com a frescurinha, acham meio opressora. Sabe quando tem aquela amiga que sempre se veste bem e todo mundo acha cansativo ficar do lado dela porque é como uma cobrança pra estar igual? Ou aquela que decora ou cozinha: você vai a casa dela e em vez de pensar “uau, olha o que essa linda fez pra mim”, pensa “cacete, e lá em casa eu servindo pão com Doriana, nunca que eu convido essa mulher lá”. Então, todo mundo pensa assim. Todo mundo acha que o mundo fica girando, ali, em volta do próprio umbigo.

Aí começou a ficar desagradável. Comecei a receber convites pra jantar e lá vinha um “Mas ó, é coisa simples, viu? Não é igual seus jantares!”. Convidava e ouvia um “Mas, ó, sem frescura viu? Pode fazer um cachorro quente”. Mano, eu amo cachorro-quente, mas é tão frustrante quando você se anima pra servir seu melhor prato na melhor louça e a pessoa fala “ahhhh, que frescura, cara!”. Serio, não é legal dizer isso. Não digam isso.

Enfim, eu que sou a Rainha Debora do Ouvir aos Outros e Se Importar Demais Bragança e Silva me apaguei um pouco. Parei de cozinhar. Relaxei na decoração. Fui deixando de lado mesmo. Confundi tudo.

Mas a reflexão pode morar nas coisas mais engraçadas. Hoje, liguei a TV no programa da Lorraine Pascale e ela estava ensinando a fazer coisas fabulosas. Coisas que eu olhava e pensava “aí, que demais… Mas não. Não vou fazer, não tenho pra quem fazer isso”. Até que ela disse a frase:

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“Everyone deserves a posh meal once in a while”

Everyone. Todo mundozinho. E todo mundo inclui… Eu. Poxa, Lorraine, obrigada. Dez segundos depois que você disse isso eu percebi que abandonei um dos hobbies mais amados por mim pra não chatear as pessoas com… Me importar demais?

E, sabe, às vezes a gente se importa demais com o que não é pra gente e acha que o que fazemos pra nós mesmos é pros outros. Eu sempre achei que minha casa bonita e bem decorada e meus pratos afrescalhados eram pros outros. Sim, são. Mas não são. São minha forma de me expressar e ser feliz. São pra mim. E não são obrigação – se der preguiça sempre haverá o cachorro quente.

A gente precisa mesmo parar de achar que tem que todo mundo andar na mesma fila. Que a amiga bonita é bonita pra cobrar a gente, e não porque ela gosta de ser assim. Se você se incomoda ou é porque não se permite se embelezar (e permita-se) ou porque não gostaria de ter (então não faça). A casa linda da colega é dela pra ela. Se você se incomoda pode ser porque você quer também (então enfeite sua casa, leia blogs e revistas de Decor – você vai amar) ou porque não se importa e não quer se importar (então simplesmente não se importe). Nós merecemos o que queremos. E não merecemos ter de fazer o que não queremos. Nós precisamos de parar com essa pressão horrorosa – se a gente coloca mais energia em fazer o que gosta em vez de tentar agradar os outros e reparar no que os outros fazem a coisa fica melhor, acredite.

Precisamos parar de achar que os outros fazem pela gente. E parar de se importar com o que os outros vão pensar. Com como vão interpretar. Veja, de tanto me importar com a opinião dos outros eu cheguei a conclusão que um prato rococó com um molho bonito são ofensivos. Poxa, que viagem!

Enfim, eu gosto de ser uma fresca. Eu me amo assim. Tenho amigos que amam também e valorizam quando eu faço isso pra eles. Quem não ama? Bem, pode lidar. A terapia está logo ali para tratar tudo que te irrita. Eu faço, amo e adoro!

E acho que assim que sair da cama (tô de molho proibida de andar por uns dias) estarei na cozinha batendo um belíssimo bolo com chocolate maltado. Obrigada Lorraine por me lembrar do que eu gosto. Receita na imagem pra quem quiser se aventurar ;).

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Sobre assumir seu estilo, seus livros e seus discos na estante

Nos idos da minha adolescência quando eu era a nerdinha da turma e tirava notas 10 mas não tinha muitos amigos (muito menos namoradinho), cheguei a conclusão que o que deveria acontecer era eu ser mais popular. Mudei de colégio e resolvi que seria burra porque, né, todo mundo ama uma menina burra. Pintei cabelo de loiro, comecei a matar aula, parei de ler os livros que gostava e usei mini blusas que odiava, fingi ser alguém que eu não era e que antes eu abominava. Enquanto eu fingia ser esse alguém que eu abominava, realmente, passei a ser mais popular e conquistar “amizades”.

Foi assim que eu tirei as primeiras notas absurdamente vermelhas da minha vida, no primeiro semestre do Ensino Médio. Mas, eu queria ser popular, não repetir de ano, então me matei de estudar em julho, voltei e gabaritei provas a rodo no segundo semestre. E não esqueço de uma “amiga” minha desse tempo ter chorado porque tirou uma nota “até menor que a da Debora”. Quer dizer, eu, na ânsia de agradar aquelas pessoas que na verdade nem mudavam nada na minha vida, fingi ser alguém muito abaixo delas, alguém que não merecia o respeito delas. Como se ser alguém considerado bom o suficiente por essas pessoas que não são eu fosse mais importante do que ser feliz sendo eu.

Mas não foi aí que eu aprendi a lição que eu deveria, como toda adolê eu ainda dei umas boas cabeçadas até chegar no que eu quero contar. Digo que dei cabeçadas porque, por exemplo, o caso se repetiu na faculdade. Quando entrei lá, fiz todo o possível pra não ser vista como a nerd sem amigos da vida toda. E só consegui ser machucada sendo tratada como uma imbecil, uma pessoa abaixo de praticamente todos os outros lá. Então eu resolvi adotar uma postura de “I don’t care”, já que pela lógica se as pessoas me tratavam mal por eu ser “burrinha”, se eu me vestisse de intelectual e começasse a me portar como tal, iriam me respeitar. Mas não, não aconteceu. Quem não gostava de mim continuou não gostando e achando outros defeitos.

Isso continuou por muito tempo: ao conhecer família do marido, ao conhecer amigos de amigos, ao conhecer pessoas que eu queria impressionar. Pessoas que eu achava que deveriam me dar nota 10 no teste da vida por algum motivo. Eu passei por diversas trocas de estilo, eu decorei a casa e tentei diversas atitudes. Fingi ler livros que não li e fingi não gostar de outros que gostava para me enturmar. O resultado invariavelmente foi desastroso.

Não quero colocar a culpa na sociedade, mas acho que tem alguma coisa a ver. As revistas femininas que eu lia tinham tutoriais mil de como emagrecer pro biquíni do verão, como se portar ao conhecer a sogra, como fazer a primeira entrevista de emprego. Todos muito sobre fazer coisas que eu não gostava, fingir ser alguém que não era. Sobre não ter orgulho de quem se é e perder tempo fazendo o que não se gosta. É louco, porque veja, somos todas diferentes nesse mundo, mas todos esses tutoriais de como vestir, usar, ser e se portar partem do princípio que temos defeitos horrorosos a esconder urgentemente para sermos aceitos. É louco porque se sua sogra não gosta de você, ela que lide com isso – você namora a cria e não ela. É louco porque se o empregador não acha que o emprego é pra você é porque ele não é pra você e vai ser uma infelicidade – melhor ser autêntica (não confundir com babaca) e ter um emprego que seja “seu número”. É louco porque nem todas nós precisamos usar o mesmo biquíni e ter roupas da mesma cor arrumadinhas do mesmo modo pra sermos felizes. Não faz nem sentido. Mas é assim que funciona e não tem muito tutorial de amor próprio por aí não.

Demorou alguns anos pra mim, mas olhando em volta acho até que foi mais rápido que pra maioria. A enorme ficha do universo me caiu e eu percebi que a única pessoa que eu devo agradar chama-se Debora, tem um monte de tatuagens e cabelo enroladinho. Se eu gosto de ler, isso não me torna uma nerd sem amigos, mas eu não tenho obrigação de amar o livro que os intelectuais estão amando essa semana. Se eu gosto de moda e esmaltes isso não faz de mim uma mulher burra, mas alguém que gosta de brincar com formas e cores. E não, isso não significa que eu preciso ter todos os vestidos da arara da marca da moda.

Nessa peregrinação por descobrir a verdade mais óbvia eu gastei muito tempo e muito dinheiro comprando símbolos. Talvez pelos contrastes de ser a adolescente que iniciou o ensino médio pagando de popular e terminou sendo parte da equipe de xadrez, por ser a jovem que teve blog de moda mas também a que parou pra pensar sobre consumismo. Eu não me encaixei nos modelos. Demorei pra ver que a verdade é que nenhuma de nós se encaixa muito nesses clichês, a gente não precisa. A gente pode gostar do que gosta e está bom, está bem.

Quando nós estamos tentando nos encaixar nessas coisas, a gente gasta muito de si mesmo, desperdiça energia, com os símbolos. Se você é inteligente, tem que sempre ter um livro embaixo do braço. Se você é descolada, tem que sempre estar com a roupa que choca. E é muito, muito importante que você poste essas aquisições no Instagram e diga frases como ‘sou especial, não sou como as outras’ por ser parte de um ou outro clichê. Que outras? A gente nem conhece as outras, mas já sabe que é melhor que elas porque leu o livro e comprou o sapato certo. Que grande babaquice, né?

Faz um ano, eu iniciei uma reforma na minha vida e decidi parar de dizer sim pro que eu nem curto. Percebi que eu não tenho mais tempo nem paciência para livros que não gosto, para roupas que não servem, para filmes que não curto. Eu me sinto melhor assim e eu queria ter descoberto isso antes.

Agora, sabe, principalmente pro que eu não tenho mais paciência? Pra gente que não me conhece muito menos quer conhecer mas já não me gosta. Gente que debate pessoas e não ideias. Gente que avalia outras gentes por aparência e fetiches. Gente que coleciona livros e por isso se acha melhor do que quem coleciona sapatos. E vice-versa. Eu já estive dos dois lados da moeda e digo que sapatos e livros… ambos são só objetos de que você não precisa. Você lê um livro e o conhecimento é seu pra sempre, uma estante cheia deles não diz nada sobre sua inteligência, apenas sobre seu materialismo. Você tem um ou dez sapatos e todos eles aquecem seu pé igual. Não faz diferença. Não importa, mesmo. E, por isso mesmo, a gente não deveria ter espaço para colecionar objetos que não nos traduzam. A gente deveria nem colecionar objetos, na verdade, porque isso é abrir espaço pra ter mais do que já se tem por motivos malucos. A gente deveria ter os livros que gosta de ler e os sapatos que gosta de usar e fim. O que nos faz nos sentir bem e fim.

Mas, voltando às pessoas, antigamente, ao cruzar com elas, eu tinha uma técnica. Eu conversava vinte minutos tentando descobrir os gostos da pessoa e então eu “seguia o flow”. Fingia ser da mesma turma, gostar das mesmas coisas pra ser gostável. Agora eu penso que se elas não gostarem… Bem, paciência.

Enfim, foi nessa semana, depois de duas diferentes conversas com minhas melhores amigas, que eu percebi os frutos dessa reforma: foi quando me dei conta que realmente não tenho mais roupas nem maquiagens que não me façam me sentir fabulosa. Não tenho mais espaço na estante pra livros que eu não sinta prazer em reler. Não tenho mais CD’s que não me dêem prazer de ouvir. E eu não preciso tê-los mais, porque antes, sabe, antes eu precisava. Eu precisava que meus livros fossem vistos pra pensarem que eu era inteligente, que meus sapatos fossem vistos pra que eu parecesse antenada. Não era pra mim, era pros outros. E agora eu percebo que minha casa e minha vida são pequenos demais pra guardar tralha alheia. Que meu dinheiro é suado demais para ser gasto em objetos para impressionar gente que não ralou pra ganhá-lo. Desapego, passo pra frente, que o que eu tenho e não deveria vá pertencer a quem realmente pertence.

Eliminando esses objetos que eu nunca quis, eu eliminei as pessoas e a vida ficou tão absurdamente mais leve que chega a ser boa como nunca foi. Eu não tenho mais medo de assumir minha religião, meus sentimentos, meus sonhos e vontades. Eu não tenho mais obrigação que eles sejam iguais os das outras pessoas pra que a gente tenha alguma sintonia louca que gere amizade. Amizade brota. Não brotou? Paciência. A sintonia vai rolar, tem sete bilhões de pessoas no mundo e uma hora ela rola.

E hoje, enquanto eu estou aqui ouvindo a música que gosto sem medo do que vão pensar desse perfil, usando a roupa que gosto sem medo do que isso representa, dando atenção aos amigos que me fazem bem sem culpa, gastando meu tempo comigo… Eu fiquei pensando se voltaria no tempo e diria pra Debora de 14 anos “menina, para com essa bobeira, vai se amar!”. E, sabe, eu não diria. Se a Debora de 14 anos não tivesse feito essa caminhada erradíssima tentando agradar quem não valia a pena e querer o que diziam que deveria se querer… O simples prazer de ser eu não seria tão bom.

Talvez fosse legal curtir a adolescência e o começo da juventude sem ter me preocupado tanto. Quer dizer, fui aprender que posso ser eu quando já era adulta, casada, empresária e cheia de contas. Não sobrou muito tempo pra despirocar. Mas sabe do que mais? Eu nem gosto de despirocar tanto assim também. Deixa pra quem gosta. Eu curto ser responsávelzinha e maluquinha nas medidas certas para mim.

Então, fica esse recado: obrigada, dona Debora de 14 anos, por ter feito tanta merda. Sem isso, eu não teria aprendido que era tão mais fácil só ter sido feliz.

Será que eu to sozinha em me sentir assim hoje?

(Como esse post tá tão piegas que poderia ter sido facilmente escrito pela Miley Cyrus – inclusive parece um apanhadão das entrevistas dela no último ano – deixo vocês com uma música da época em que visivelmente a ficha dela caiu)

tirando a tralha

nesses últimos dias ando lendo um monte sobre organização  (da casa, do armário, da agenda, da vida) e uma coisa que todo mundo concorda é que é muito mais fácil ser organizado e feliz sem tralha na vida. tem algumas coisas que eu sou completamente desapegada e consigo não acumular com facilidade – se tá parado, sempre separo roupa e sapato pra doar (e como eu não compro muito, meu armário até que é bem enxuto) e só consigo funcionar com a casa em um estado mínimo de ordem.

mas tem uma coisa que eu tenho uma dificuldade séria pra desapegar: música. desde quando eu era pequenininha, essa sempre foi uma das minhas grandes paixões. quando eu tinha lá uns 14 anos e comecei a moldar meu gosto musical (ou seja, comecei a ouvir a tríade sagrada de Strokes/YYY’s/White Stripes), eu não tinha computador e não tinha como achar muito do que eu gostava – apesar do meu pai ter uma loja de discos, 98% do que eu gostava não chegava nem perto das prateleiras do Brasil, quem dirá do interior do Paraná. o que chegava, eu comprava aos pouquinhos ou ganhava de presente do meu pai, e até hoje tenho todos os meus CDs originais guardadinhos. é raro eu escutar alguma coisa, mas é impossível pensar em me desfazer deles.  isso é uma parte do problema, mas na verdade uma caixa de sapatos já dá conta de guardar todos numa gaveta, então nem considero isso um acúmulo ruim.

o probleminha é que quando eu finalmente pude começar a encontrar as bandas que eu gostava (ou às vezes nem gostava tanto mas pelo menos queria conhecer o que tava ~rolando na época), eu comecei a virar uma acumuladora de mp3. não é uma coisa tipo o acumuladores do Discovery Home and Health – eu sempre fui neurótica por deixar minhas músicas com os nomes de arquivos bonitinhos, tudo organizado em pastinhas e tal. mas dando uma analisada nos mais de 30 gigas de música que eu tenho, eu percebi uma coisa muito simples:

sabe, eu gosto muito de música e já fui louca por descobrir novas bandas, mas o fato é que hoje em dia eu escuto bem menos coisa. eu sempre fui disciplinada (olha o nível do TOC da louca) de que se eu tenho alguma coisa no computador, eu tenho que ter escutado pelo menos uma vez. ah, e se é um disco inteiro, tenho que respeitar a ordem e número de músicas que o artista decidiu que era cabível pro disco, dezulivre apagar alguma coisa e deixar o disco “errado”. mas isso não significa que eu escutei de novo e isso não significa que eu tenha gostado de todas as músicas. e isso não faz sentido.

então eu comecei a fazer uma limpa quase espiritual aqui. porque bem, eu gosto de Wilco mas eu não preciso de um disco inteiro deles fazendo covers de músicas que eu nem gosto. eu não vou perder meu ~street cred se eu finalmente aceitar que eu acho esse primeiro disco do Beulah um saco. eu curto Cat Power mas eu não preciso de um monte de música ao vivo com qualidade de bosta porque é ~raridade. eu amo Regina Spektor mas eu não preciso deixar aquela bosta de música que eu sempre passo no meu computador (se livberte também, Debs). tem uma música do Ben Kweller que eu gosto mas eu não tenho mais 15 anos e não preciso ter o disco inteiro pra nunca escutar. não, eu não preciso da discografia completa da PJ Harvey se o fato é que eu gosto de cinco músicas. e nossa, eu pude finalmente apagar sem dó aquele disco de bosta que o Band of Horses  lançou esses tempos.

então aqui estou, sentada ouvindo faixa por faixa dos discos que eu não tenho certeza absoluta que eu amo todas as músicas. se tem três faixas que eu gosto e o resto é uma bosta (olá, Arctic Monkeys), eu apago tudo sem dó e deixo só o que eu gosto. pode parecer uma coisa bobinha, mas eu to achando isso terapêutico: eu passo o tempo todo com música ligada, não faz sentido que eu tenha sempre as que eu mais gosto por perto? acho que começando por uma coisa pequena assim, fica mais fácil aplicar pro resto – roupas, tralha da casa, relacionamentos, livros. a vida é tão curta, pra que eu vou desperdiçar com alguma coisa que eu não gosto?

ps1: acho que minha maior alegria foi “consertar” o Revolver tirando Yellow Submarine.

ps2: também to bem feliz por tirar a tralha e redescobrir coisas que eu gosto muito e quase nunca escuto, tipo isso aqui:

 

vestidos floridos

não sei vocês, mas se tem duas coisas que eu gosto nessa vida são vestidos e flores bonitas. por isso, eu fiquei pulandinho de alegria quando descobri o trabalho dessa artista, que faz coisas incríveis com ilustrações de aquarela e flores. olha quanta coisa bonita:

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quero deixar aqui casualmente a informação de que as imagens estão à venda e que mês que vem é meu aniversário. esse de buganvilia é meu maior sonho de consumo na vida nesse momento (a imagem tem um preço bem decente, mas o frete tá salgado)! eu acho que pagar R$100 por uma peça de arte única e linda é bem válido – só to sem essa grana sobrando no banco agora. mas juro juradinho pra mim mesma que um dia esse quadrinho vai estar pendurado na minha casa : )

minha nova obsessão

segunda de manhã eu estava perdendo tempo no tumblr e vi um gifset da atriz Zoe Saldaña falando umas coisas interessantes e fui atrás da entrevista inteira. acontece que a entrevista faz parte de uma série feita pela atriz/modelo/fotógrafa/mulher maravilhosa/minha nova diva Amanda de Cadenet.  a série tem oito episódios com várias entrevistas realmente fantásticas e íntimas que discutem questões femininas sem cair em discussões bobinhas sobre corpo/beleza e também sem cair no feminismo “didático”.

é muito legal ver que absolutamente todas as mulheres entrevistadas – uma lista fabulosa que passa por Diane Von Furstenberg, Ariana Huffington, Jane Fonda, Gwyneth Paltrow, Miley Cyrus e Lady Gaga – têm algo importante a dizer sobre as próprias experiências e como tudo pode ser aplicado na vida de qualquer mulher. acho que o bacana é que não importa que são famosas – são mulheres antes de tudo, que sofrem dilemas parecidos com os que qualquer mulher sofre, e que compartilham o caminho que encontraram (ou que ainda procuram) para lidar com os perrengues da vida.

quase todas as conversas falam profundamente sobre um assunto específico na vida das entrevistadas – e é sempre algo que qualquer mulher pode se relacionar, mesmo sem ter tido a experiência – a Eva Longoria fala abertamente sobre a traição que acabou com seu casamento e como não, a culpa não é da mulher, a Eva Mendes fala sobre a importância de garantir a própria segurança financeira, a Gabourey Sidibe fala sobre a auto imagem e a importância de se conhecer e se amar de qualquer forma, a Jane Fonda fala sobre a importância de não depender de um homem para se definir…

são mulheres muito diferentes falando de assuntos muito diferentes, mas em todos os episódios eu senti que a conversa era comigo – mulheres inteligentes, fortes, engraçadas e incríveis dando conselhos e falando que sim, é normal não se sentir feliz às vezes, que é normal se sentir insatisfeita com o corpo, que é normal não ser feliz o tempo todo. a única coisa que todas concordam é que o importante é se aceitar e aprender a se amar. e eu juro que assistindo essa série toda, isso parece ser muito mais fácil : )

ps: eu sei que é importante não deixar um homem te definir e tal, mas acho relevante mencionar que a Amanda é casada com o Nick Valensi, guitarrista do Strokes, e ela posta fotos assim no Instagram.

parede feliz

vocês lembram que um tempo atrás eu postei sobre a parede da minha sala de tv, que estava sendo uma provação da minha sanidade persistência? pra quem não quer ler a ladainha toda, basicamente eu queria uma parede estampada e o resumo é esse:

eis que depois de umas três semanas (eu pegava uma horinha de cada dia pra colar um pouco de fita crepe na parede porque sa porra cansa), finalmente terminei a marcação da estampa na parede. o negócio é que eu comecei a fazer com um molde em papel e fui marcando e a cada losango que eu fazia, ia entortando um milímetro e no fim bastante coisa tava bem torta. no último dia só que eu percebi que sou uma anta (mentira, eu sempre soube, eu só percebi que fui uma anta maior nesse caso específico) e vi o jeito mais fácil de fazer a marcação: peguei a medida da linha do meio do losango, marquei na parede com o nível pra ficar bem retinho e depois só marquei os pontos. em quarenta minutos eu terminei uma parte da parede que eu levaria umas duas horas pra fazer.

anta

aceito uma roupa com animal print de anta

enfim, depois de muito sangue, suor e lágrimas, minha parede ficou assim:

2014-06-13 17.49.54

aí que a 3M mentiu pra mim e a fita específica para proteger paredes pra pintura deixa a tinta vazar. mas sabe, gente, minha parede já tava cheia de fita e eu já tinha sofrido muito, então eu tomei a única providência cabível: segui a dica que aprendi nesse vídeo e usei massa corrida pra proteger a área a ser pintada. ou seja, a parede toda. com. massa. corrida.

aí depois disso respirei fundo, esperei a massa corrida secar e pintei a parede mais demorada da história. no fim ela ficou assim, e me faz sorrir toda vez que eu to vendo tv e dou uma espiadinha nessa coisa linda 🙂

2014-06-21 14.31.44

 

ah, mesmo com a massa corrida, tem algumas partes que ficaram com algumas manchinhas e imperfeições, mas sabe, eu tenho seis graus de miopia e posso ignorar qualquer coisa que eu quiser nesse mundo, então escolhi deixar isso quieto enquanto não me incomoda 🙂

 

Um simples vaso de xícaras

VASES[1]

Essa semana eu vivi a aventura mais rápida, louca, maluca e devastadora da minha vida. Eu, que fugia da pergunta “pra quando vocês vão ter filhos?”, que desviava dos familiares falando “Mas um ano de casados, já tá na hora”, sai do banheiro de casa com dois risquinhos no exame de farmácia e o coração na boca.

Minha cabeça rodou em mil pensamentos sobre a loucura de gerar outro indivíduo, de ver alguém crescer. Alguém que é seu: sua responsabilidade, seu dependente, sua consequência. Mas que não é seu, que é outro alguém, que você não doma, não prevê, não sabe, não conhece… Se isso não é a coisa mais emocionante que pode acontecer, eu não sei qual é.

Eu entrei em um mar de felicidade, aqui em casa as coisas todas viraram sorrisos. A gente nunca, nunca teve uma felicidade desse tamanho e eu posso dizer que aqui em casa a gente costuma ter várias felicidades bem grandes.

E a coisa é que enquanto piravamos sobre o dia em que essa criança conheceria um paredão de escalada com o papai ou sobre a primeira vez que mostrariamos Star Wars pra ele, parecia que nós éramos dois irresponsáveis completamente malucos brincando de casinha no meio dos adultos.

Os adultos não queriam saber se a Alice ou o Vitor iam preferir Star Wars a Star Trek, pra eles isso nem era tão importante. Os adultos queriam saber se nós tinhamos programado, se eu tava tomando vitaminas, se eu tinha feito meus exames de sangue, se eu tinha decidido se a educação seria Montessoriana, se eu tinha pensado sobre a cesárea ou parto normal, se eu ia fazer enxoval em Miami ou em Nova Iorque, se eu ia tirar uma licença maternidade muito longa ou curta ou isso ou aquilo ou aquele outro ou aquele mais…

E, enquanto todos os artigos de gravidez diziam que eu deveria esperar três meses para contar (algo pode dar errado), eu pensava que isso não faz sentido. Algo sempre pode dar errado, eu não deixei de contar que casei porque muitos casais se separam e não deixaria de falar da minha gravidez porque abortos acontecem. Se acontecesse, poxa, paciência. A gente se virava.

Eu pensei que, sinceramente, teria nove meses pra responder a todas as perguntas chatas e refutar toda a espera e que o mundo poderia se explodir porque nada ia abalar essa felicidade imensa que eu queria viver em intensidade. Mas o fim da semana veio com uma cólica infernal, uma bigorna caindo no meio do meu mar de felicidade, uma corrida pro hospital e a notícia de que tinha acabado.

Eu não ia ter o tempo de responder todas essas perguntas porque eu não estava mais grávida. E assim como eu nunca experimentei uma felicidade do tamanho do bonde que chegou, nunca senti uma dor tão grande quanto quando esse bonde me atropelou ladeira abaixo e levou tudo embora. É muito maluco você viver um sonho que nem sabia que tinha e muito mais maluco te arrancarem esse sonho das mãos.

E, no meio da dor, as perguntas não acabaram. Você foi ao médico? Fez curetagem? Avaliação dos cromossomos? Triagem dos óvulos? Agora continuará tentando? Você ainda quer? Você vai juntar dinheiro para ir a Miami?

E eu aqui, apenas querendo que Miami, com o perdão da palavra, se foda. Que Miami exploda em pedacinhos. Eu não ligo pra Miami ou pra TipTops da Tommy, eu só quero que minha felicidade que tava na minha mão não escape, que ela volte, que eu consiga dormir de novo com as mãos do meu marido entrelaçadas na minha sobre a minha barriga, com a gente suspirando sobre como o futuro vai ser lindo. Porque eu não sei mais nada.

E, sabe, eu sempre sonhei que seria assim: eu não ia tentar engravidar. Um dia, eu ficaria grávida. Como nos filmes e nas novelas. Eu não entraria nas pilhas dos exames de sangue, da preparação de seis meses com a vitamina certa e comendo brócolis diariamente.

Eu não sei quem fez isso com a nossa vida, mas me parece mais um caso de pasteurização da vida. Mais um caso de vaso de xícaras da Tok&Stok. Sabe, quando aquele DIY de vaso de xícaras do Pinterest ficou super famoso e todo mundo achava uma gracinha, daí a Tok&Stok mandou fazer milhares dele na China e de repente qualquer pessoa com cento e poucos mirréis no bolso tinha a última moda do Pinterest na sala? Porque afinal era moda, porque era algo que a internet dizia que tinha que ter e você não precisava do tempo, do afeto, da naturalidade de criar um objeto só seu?

Eu sinto que fazem isso com a vida, o tempo todo. Quando dizem pra você que gravidez tem que ser algo com um preparo, que você tem que escolher isso ou aquilo. Que um parto não é o que o seu corpo pede, mas o que você programa. Que a educação não é uma interação de amor, mas algo em um livro. Que a vida não é algo que Deus escolhe e manda quando duas pessoas se amam tão forte que viram três, mas as vitaminas e a programação e a tabela e o relógio e o cromossomo exato.

Quando foi que ficamos tão chatos? Quando foi que paramos de sentir? Quando foi que a celebração da vida virou a programação de uma bosta de um enxoval em Miami? Quando foi que ficou mais importante brigar pelo parto correto que sentir a alegria de ser mãe? Quando foi que acabou o espaço pra sofrer a perda de um aborto pra ceder lugar pra um mapeamento cromossômico desnecessário e exagerado?

A vida, parece, precisa ser chata. Chata como trabalhar oito horas por dia pra ter dinheiro pra ir na Tok&Stok comprar o vaso da última moda que você não tem tempo nem saco pra fazer porque trabalha oito horas por dia. Terceirizamos o vaso, o diy, terceirizamos a educação para o livro, medimos o afeto em TipTops importados e, agora, queremos fazer o sexo, o amor e a vida perderem a graça com uma programação estúpida. Coisa de uma geração com medo de viver, com medo de se decepcionar. Uma geração com medo de contar que ficou grávida porque, deus me livre, pode dar errado e aí o mais importante não é sofrer uma dor física e psicológica tendo o conforto de quem te ama sabendo que você está sofrendo mas explicar da forma correta para os seus amigos no Facebook que não está mais grávida, por favor, sem aborrecê-los. [Aqui não falo dos meus amigos e familiares que me aconselharam com muito amor sobre como contar para as pessoas, mas dos artigos que dizem pra você não dividir a notícia com seus pais porque “eles podem ficar felizes e se decepcionarem a toa”]

A gente toma a vitamina, compra o vaso pronto, a gente compra até a gravidez pronta e só fala nos assuntos quando não existe mais espaço pra decepção. Isso não é viver. Isso é outra coisa, outra coisa que eu recuso.

[Meu filho ou filha, tome o tempo que quiser pra chegar. Eu te prometo que você vai vir pra cá como todos os nossos projetos de DIY, de viagens, de passeios e tudo que eu e seu pai fazemos na vida: vai ser algo que resolvemos fazer um dia e botar todo nosso amor e afeto e coração pra fazer da maneira mais bonita, mais sincera e mais gostosa possível. E quando você chegar e puder ficar de verdade, você vai enfeitar nossa vida mais do que qualquer artigo que a Tok&Stok traga da China, mais do que qualquer vitamina sintetizada, mais do que qualquer playcenter de Miami. Você vai ser mais lindo e melhor que qualquer coisa. Porque você vai ser único, imprevisível, individual… e vai me decepcionar, vai me fazer chorar, vai me deixar triste e eu não tenho medo porque você vai me fazer sorrir e apagar tudo. Porque você vai ser a maior prova de que a nossa vida não precisa ser chata e programada e tabelada. Ela pode acontecer na hora que quiser. É pra isso que a gente tá aqui.]