sobre ser diferente das outras

quando eu era criança, eu era esquisitinha. eu era muito magra (cês não botam fé em quanto biotônico Fontoura já me deram nessa vida), tinha o dente muito separado – uns cinco níveis acima do fofo aceitável socialmente tipo da Madonna – e tinha uma pira muito louca de cortar meu próprio cabelo, então passei boa parte da infância com um cabelo joãozinho bem zoado. pra coroar tudo, eu também não era lá uma criança muito sociável. na escola, eu sempre ficava sozinha lendo na biblioteca no recreio, achava um terror quando tinha trabalho em grupo e sempre era a última a ser escolhida para todo e qualquer esporte.

euzinha na infância

euzinha na infância

mas de algum jeito, eu era feliz assim. meus pais sempre tiveram muito orgulho que eu lia um monte e gostava de música e fazia colagens e era criativa (ok, minha mãe não gostava quando eu rasgava camisetas pra ~ser criativa, mas vamos seguir em frente), e eu achava que isso era legal. até que em algum momento as outras crianças me convenceram que ser esquisitinha não era uma coisa legal. eu era feia, estranha e ninguém quer ser amigo de alguém assim – e imaginem só, como que os meninos iam gostar de mim? não vou nem entrar na discussão de como é louco uma menina de 9 anos ter que se preocupar com esse tipo de coisa, mas foi assim que eu comecei a mudar a minha opinião sobre mim mesma.

eu queria me enturmar, mas eu nunca tive saco pra mudar pra me encaixar nos grupinhos, então na adolescência eu entrei num paradoxo muito louco: eu tinha uma auto estima mais baixinha que o nível de água de piscina infantil, mas eu achava que eu era melhor que as outras meninas. eu era uma menina diferente das outras.

eu achava que porque eu escutava música indie e conhecia bandas que ninguém ouvia, eu era melhor do que as meninas que gostavam de música pop. eu achava que porque eu não usava roupas “de menininha”, eu era muito mais legal que elas. eu não me importava com meu cabelo, eu não fazia as unhas e eu não ligava pra essas coisas que as meninas iguais às outras davam importância e isso obviamente significava que eu era mais inteligente que elas, que perdiam tempo com banalidades.

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prbns por ser especial

só que uma hora isso mudou. quando eu tinha uns 18 anos eu achei que seria legal usar uma saia rodada de cintura alta. eu achei que era a coisa mais fofa usar esmalte colorido com glitter. eu achei que era bacana fazer uma trancinha no cabelo e usar como tiara. eu achava o máximo usar batom rosa todo dia. eu achei que era uma boa ideia começar um blog pra falar dessas coisas com uma amiga. só que aí eu entrei em outra armadilha: eu fazia essas coisas e escrevia sobre essas coisas e eu gostava genuinamente de todas essas coisas, mas eu jurava de pé junto que eu fazia isso diferente das meninas iguais às outras.

porque vejam só, eu gostava da saia de cintura alta que tava na moda, mas eu comprei ela num brechó, eu não caía na armadilha capitalista fútil de comprar roupa de marca. eu fazia a unha em casa porque, diferentes das outras meninas, eu achava uma besteira gastar dinheiro com coisa besta assim, eu gostava de batom mas eu comprava os baratinhos porque ai, não vou gastar dinheiro com MAC porque isso é coisa das outras, sabe?

mas que merda de raciocínio é esse, julinha?

porque sabe, eu me importava com cabelo e unha e os desfiles de alta costura mas eu sabia que eu fazia faculdade de comunicação, que eu era inteligente, que eu lia bastante, eu tinha personalidade, eu usava as coisas porque eu gostava e não só porque era moda e JAMAIS que eu seria igual às meninas que se importam com essas coisas, umas desmioladas. na época eu estava em um relacionamento que reforçava isso: quando eu comecei a gostar dessas coisas, eu passei a ser uma das outras meninas e eu sentia que precisava me provar, eu precisava esconder que eu gostava dessas coisas  ou pelo menos mostrar que eu gostava de um jeito diferente porque isso não é coisa de menina legal e inteligente, diferente das outras, sabe?

eventualmente eu parei de fazer o blog porque não me divertia mais tanto escrevendo, eventualmente eu fui trabalhar numa confeitaria por umas dez horas diárias de cabelo preso e sem unha pintada e eu entendi que essas coisas que eu gosto não definem quem eu sou. eu sou uma mulher jovem que ama cozinhar e fazer doces, eu tento ser uma boa amiga, eu tento ser gentil, eu tento melhorar a minha mania de dar respostas atravessadas e magoar as pessoas, eu tento ser organizada e eu tento melhorar as minhas falhas. eu gosto de me enfeitar, eu gosto de usar batom vermelho, eu gosto de pintar a unha com glitter colorido quando não estou trabalhando, eu adoro usar vestidos lindos com estampas legais e eventualmente eu gosto de simplesmente usar jeans com moletom com o cabelo todo cagado e com a cutícula enorme. e nada disso muda quem eu sou.

e nada disso me dá o direito de ser sommelier de comportamento e caráter de gente que eu não conheço. porque sabe, grandes bosta se alguém vê filme iraniano enquanto a outra vê comédia romântica hollywoodiana, isso não quer dizer que uma é melhor que a outra. porque se importar com a aparência (ou com coisas que eu considero fúteis ou não essenciais ou bobas) não é ser menos que eu – e se alguém realmente só se importa com a aparência, deve ter uma auto estima meio mal resolvida e a pessoa precisa de tempo pra se descobrir, não de julgamento de quem acha que é diferente e superior a ela (oi, euzinha mesmo).

não se importar com a aparência, desde que isso não afete a sua auto estima e sua auto imagem, também não tem nada de errado. aos poucos a ficha foi caindo daquela coisa mais clichê do mundo: tudo está certo desde que a pessoa faça sem prejudicar outras pessoas nem a si mesma. aí eu lembro de uma coisa que a Jane Fonda falou em uma das entrevistas que eu falei aqui, que quem você é de verdade provavelmente se parece mais com quem você era aos oito anos de idade.

e realmente, naquela época eu julgava menos as pessoas e tenho a impressão que também me importava menos quando era julgada. estou tentando voltar um pouquinho pra esse ponto – mas dessa vez, sem me esconder embaixo da mesa da sala pra cortar meu cabelo escondida.

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