Lorraine Pascale me salvou de me perder

Quando eu casei descobri algo novo sobre mim: eu gosto, bastante de frescurinhas. Super previsível, né: adoro roupa nova, combinar cor e textura, maquiagem bonita e colarzão. Nunca tive a pira do “precisa ser caro”, mas desde que comecei a ser mais independente tenho essa paixão pelo belo. Óbvio que quando eu tivesse minha casa eu iria refletir essa parte de mim.

Sai louca, tacando cor forte nas paredes, comprando cobertas e louças bonitas e, no primeiro dinheirinho sobrado, minha amadíssima batedeira planetária chegou ao seu lar.

Agora, imagina a comunidade assistindo isso na minha casa: eu, que cresci ouvindo “não sabe nem lavar a louça, nunca vai casar”, “esse quarto cheio de roupa jogada, nem parece mocinha” e “queima até arroz essa menina, nunca vai ter jeito”, ali brincando de prateleiras irregulares com enfeites charmosos na sala e batendo bolo de frutas silvestres na planetária? Todo mundo entrou meio em choque. As pessoas iam na minha casa e falavam “serio, você que fez isso?”.

Era demais, as visitas vinham e eu fazia um bolo de morangos com framboesas. Um assado decorado. Um buffet com perfeição. Pra mim, era meu jeitinho de falar “amo vocês, olha a frescurinha que fiz pra amar vocês aqui, tão se sentindo bem amados? Ai, como eu amo vocês”.

Só que, por algum motivo muito louco, na nossa sociedade as pessoas se assustam com a frescurinha, acham meio opressora. Sabe quando tem aquela amiga que sempre se veste bem e todo mundo acha cansativo ficar do lado dela porque é como uma cobrança pra estar igual? Ou aquela que decora ou cozinha: você vai a casa dela e em vez de pensar “uau, olha o que essa linda fez pra mim”, pensa “cacete, e lá em casa eu servindo pão com Doriana, nunca que eu convido essa mulher lá”. Então, todo mundo pensa assim. Todo mundo acha que o mundo fica girando, ali, em volta do próprio umbigo.

Aí começou a ficar desagradável. Comecei a receber convites pra jantar e lá vinha um “Mas ó, é coisa simples, viu? Não é igual seus jantares!”. Convidava e ouvia um “Mas, ó, sem frescura viu? Pode fazer um cachorro quente”. Mano, eu amo cachorro-quente, mas é tão frustrante quando você se anima pra servir seu melhor prato na melhor louça e a pessoa fala “ahhhh, que frescura, cara!”. Serio, não é legal dizer isso. Não digam isso.

Enfim, eu que sou a Rainha Debora do Ouvir aos Outros e Se Importar Demais Bragança e Silva me apaguei um pouco. Parei de cozinhar. Relaxei na decoração. Fui deixando de lado mesmo. Confundi tudo.

Mas a reflexão pode morar nas coisas mais engraçadas. Hoje, liguei a TV no programa da Lorraine Pascale e ela estava ensinando a fazer coisas fabulosas. Coisas que eu olhava e pensava “aí, que demais… Mas não. Não vou fazer, não tenho pra quem fazer isso”. Até que ela disse a frase:

B07958324913E448FA61A8FFB17C8F[1]

“Everyone deserves a posh meal once in a while”

Everyone. Todo mundozinho. E todo mundo inclui… Eu. Poxa, Lorraine, obrigada. Dez segundos depois que você disse isso eu percebi que abandonei um dos hobbies mais amados por mim pra não chatear as pessoas com… Me importar demais?

E, sabe, às vezes a gente se importa demais com o que não é pra gente e acha que o que fazemos pra nós mesmos é pros outros. Eu sempre achei que minha casa bonita e bem decorada e meus pratos afrescalhados eram pros outros. Sim, são. Mas não são. São minha forma de me expressar e ser feliz. São pra mim. E não são obrigação – se der preguiça sempre haverá o cachorro quente.

A gente precisa mesmo parar de achar que tem que todo mundo andar na mesma fila. Que a amiga bonita é bonita pra cobrar a gente, e não porque ela gosta de ser assim. Se você se incomoda ou é porque não se permite se embelezar (e permita-se) ou porque não gostaria de ter (então não faça). A casa linda da colega é dela pra ela. Se você se incomoda pode ser porque você quer também (então enfeite sua casa, leia blogs e revistas de Decor – você vai amar) ou porque não se importa e não quer se importar (então simplesmente não se importe). Nós merecemos o que queremos. E não merecemos ter de fazer o que não queremos. Nós precisamos de parar com essa pressão horrorosa – se a gente coloca mais energia em fazer o que gosta em vez de tentar agradar os outros e reparar no que os outros fazem a coisa fica melhor, acredite.

Precisamos parar de achar que os outros fazem pela gente. E parar de se importar com o que os outros vão pensar. Com como vão interpretar. Veja, de tanto me importar com a opinião dos outros eu cheguei a conclusão que um prato rococó com um molho bonito são ofensivos. Poxa, que viagem!

Enfim, eu gosto de ser uma fresca. Eu me amo assim. Tenho amigos que amam também e valorizam quando eu faço isso pra eles. Quem não ama? Bem, pode lidar. A terapia está logo ali para tratar tudo que te irrita. Eu faço, amo e adoro!

E acho que assim que sair da cama (tô de molho proibida de andar por uns dias) estarei na cozinha batendo um belíssimo bolo com chocolate maltado. Obrigada Lorraine por me lembrar do que eu gosto. Receita na imagem pra quem quiser se aventurar ;).

IMG_1199[1]

Anúncios

4 pensamentos sobre “Lorraine Pascale me salvou de me perder

  1. Todo mundo merece ser feliz por si mesmo – seja em pratos “afrescalhados”, seja em uma decoração exuberante, seja no batom vermelho e delineador pra ir almoçar na casa dos parentes.
    Obrigada por me lembrar disso. Obrigada por me lembrar que eu posso, sim, me arrumar por mim mesma – e deixar os outros pra lá. E obrigada por tanto amor e carinho em cada detalhe na sua casa – até mesmo nos almoços corridos em dia de reunião de pauta ❤

  2. Debs, eu passei nos últimos 10 anos por esse processo feio de desleixo com o que ‘me gusta’ e só valorizando o que os outros gostam, querem e esperam de mim… a chegada da Ruth está trazendo de volta essa vontade de me agradar antes que os outros (mas depois dos filhotes) ou simplesmente de não gradar ninguém porque não sou obrigada… Como eu sempre digo que você é inteligentíssima e pega as coisas muito mais rápido que a maioria dos ursos, parabéns novamente pela reflexão profunda das crises femininas escondidas sob toneladas de make, glacê ou filtros do photoshop! Aproveitando… to moooooorta de saudades!

  3. Debs sempre perfeita! Mesmo estando em um momento inverso, de querer descansar um pouco, também me vi refletida no post, pela exigência dos outros em sempre ser perfeita. Pelo simples direito de sermos quem somos, ora bolas!

  4. Que texto ótimo Debs! Tenho uma amiga aqui na Holanda que faz qualquer pão com manteiga ter uma apresentação gourmet e eu sempre a elogio por isso. E sempre falo para ela o quanto é uma delícia comer na casa dela(porque além de cozinhar deveras bem, ela tem essa coisa de servir tudo com tanta beleza e carinho). Eu realmente gosto muito de ser tratada (juntamente com minha família) com tanto carinho. Não existe em mim esse requinte, tenho outras maneiras de demonstrar carinho e outras frescuras na vida, mas adoro esse charme e espero que eu nunca tenha passado algum tipo de repressão para quem se porta assim na vida. Vou me vigiar!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s