Sobre assumir seu estilo, seus livros e seus discos na estante

Nos idos da minha adolescência quando eu era a nerdinha da turma e tirava notas 10 mas não tinha muitos amigos (muito menos namoradinho), cheguei a conclusão que o que deveria acontecer era eu ser mais popular. Mudei de colégio e resolvi que seria burra porque, né, todo mundo ama uma menina burra. Pintei cabelo de loiro, comecei a matar aula, parei de ler os livros que gostava e usei mini blusas que odiava, fingi ser alguém que eu não era e que antes eu abominava. Enquanto eu fingia ser esse alguém que eu abominava, realmente, passei a ser mais popular e conquistar “amizades”.

Foi assim que eu tirei as primeiras notas absurdamente vermelhas da minha vida, no primeiro semestre do Ensino Médio. Mas, eu queria ser popular, não repetir de ano, então me matei de estudar em julho, voltei e gabaritei provas a rodo no segundo semestre. E não esqueço de uma “amiga” minha desse tempo ter chorado porque tirou uma nota “até menor que a da Debora”. Quer dizer, eu, na ânsia de agradar aquelas pessoas que na verdade nem mudavam nada na minha vida, fingi ser alguém muito abaixo delas, alguém que não merecia o respeito delas. Como se ser alguém considerado bom o suficiente por essas pessoas que não são eu fosse mais importante do que ser feliz sendo eu.

Mas não foi aí que eu aprendi a lição que eu deveria, como toda adolê eu ainda dei umas boas cabeçadas até chegar no que eu quero contar. Digo que dei cabeçadas porque, por exemplo, o caso se repetiu na faculdade. Quando entrei lá, fiz todo o possível pra não ser vista como a nerd sem amigos da vida toda. E só consegui ser machucada sendo tratada como uma imbecil, uma pessoa abaixo de praticamente todos os outros lá. Então eu resolvi adotar uma postura de “I don’t care”, já que pela lógica se as pessoas me tratavam mal por eu ser “burrinha”, se eu me vestisse de intelectual e começasse a me portar como tal, iriam me respeitar. Mas não, não aconteceu. Quem não gostava de mim continuou não gostando e achando outros defeitos.

Isso continuou por muito tempo: ao conhecer família do marido, ao conhecer amigos de amigos, ao conhecer pessoas que eu queria impressionar. Pessoas que eu achava que deveriam me dar nota 10 no teste da vida por algum motivo. Eu passei por diversas trocas de estilo, eu decorei a casa e tentei diversas atitudes. Fingi ler livros que não li e fingi não gostar de outros que gostava para me enturmar. O resultado invariavelmente foi desastroso.

Não quero colocar a culpa na sociedade, mas acho que tem alguma coisa a ver. As revistas femininas que eu lia tinham tutoriais mil de como emagrecer pro biquíni do verão, como se portar ao conhecer a sogra, como fazer a primeira entrevista de emprego. Todos muito sobre fazer coisas que eu não gostava, fingir ser alguém que não era. Sobre não ter orgulho de quem se é e perder tempo fazendo o que não se gosta. É louco, porque veja, somos todas diferentes nesse mundo, mas todos esses tutoriais de como vestir, usar, ser e se portar partem do princípio que temos defeitos horrorosos a esconder urgentemente para sermos aceitos. É louco porque se sua sogra não gosta de você, ela que lide com isso – você namora a cria e não ela. É louco porque se o empregador não acha que o emprego é pra você é porque ele não é pra você e vai ser uma infelicidade – melhor ser autêntica (não confundir com babaca) e ter um emprego que seja “seu número”. É louco porque nem todas nós precisamos usar o mesmo biquíni e ter roupas da mesma cor arrumadinhas do mesmo modo pra sermos felizes. Não faz nem sentido. Mas é assim que funciona e não tem muito tutorial de amor próprio por aí não.

Demorou alguns anos pra mim, mas olhando em volta acho até que foi mais rápido que pra maioria. A enorme ficha do universo me caiu e eu percebi que a única pessoa que eu devo agradar chama-se Debora, tem um monte de tatuagens e cabelo enroladinho. Se eu gosto de ler, isso não me torna uma nerd sem amigos, mas eu não tenho obrigação de amar o livro que os intelectuais estão amando essa semana. Se eu gosto de moda e esmaltes isso não faz de mim uma mulher burra, mas alguém que gosta de brincar com formas e cores. E não, isso não significa que eu preciso ter todos os vestidos da arara da marca da moda.

Nessa peregrinação por descobrir a verdade mais óbvia eu gastei muito tempo e muito dinheiro comprando símbolos. Talvez pelos contrastes de ser a adolescente que iniciou o ensino médio pagando de popular e terminou sendo parte da equipe de xadrez, por ser a jovem que teve blog de moda mas também a que parou pra pensar sobre consumismo. Eu não me encaixei nos modelos. Demorei pra ver que a verdade é que nenhuma de nós se encaixa muito nesses clichês, a gente não precisa. A gente pode gostar do que gosta e está bom, está bem.

Quando nós estamos tentando nos encaixar nessas coisas, a gente gasta muito de si mesmo, desperdiça energia, com os símbolos. Se você é inteligente, tem que sempre ter um livro embaixo do braço. Se você é descolada, tem que sempre estar com a roupa que choca. E é muito, muito importante que você poste essas aquisições no Instagram e diga frases como ‘sou especial, não sou como as outras’ por ser parte de um ou outro clichê. Que outras? A gente nem conhece as outras, mas já sabe que é melhor que elas porque leu o livro e comprou o sapato certo. Que grande babaquice, né?

Faz um ano, eu iniciei uma reforma na minha vida e decidi parar de dizer sim pro que eu nem curto. Percebi que eu não tenho mais tempo nem paciência para livros que não gosto, para roupas que não servem, para filmes que não curto. Eu me sinto melhor assim e eu queria ter descoberto isso antes.

Agora, sabe, principalmente pro que eu não tenho mais paciência? Pra gente que não me conhece muito menos quer conhecer mas já não me gosta. Gente que debate pessoas e não ideias. Gente que avalia outras gentes por aparência e fetiches. Gente que coleciona livros e por isso se acha melhor do que quem coleciona sapatos. E vice-versa. Eu já estive dos dois lados da moeda e digo que sapatos e livros… ambos são só objetos de que você não precisa. Você lê um livro e o conhecimento é seu pra sempre, uma estante cheia deles não diz nada sobre sua inteligência, apenas sobre seu materialismo. Você tem um ou dez sapatos e todos eles aquecem seu pé igual. Não faz diferença. Não importa, mesmo. E, por isso mesmo, a gente não deveria ter espaço para colecionar objetos que não nos traduzam. A gente deveria nem colecionar objetos, na verdade, porque isso é abrir espaço pra ter mais do que já se tem por motivos malucos. A gente deveria ter os livros que gosta de ler e os sapatos que gosta de usar e fim. O que nos faz nos sentir bem e fim.

Mas, voltando às pessoas, antigamente, ao cruzar com elas, eu tinha uma técnica. Eu conversava vinte minutos tentando descobrir os gostos da pessoa e então eu “seguia o flow”. Fingia ser da mesma turma, gostar das mesmas coisas pra ser gostável. Agora eu penso que se elas não gostarem… Bem, paciência.

Enfim, foi nessa semana, depois de duas diferentes conversas com minhas melhores amigas, que eu percebi os frutos dessa reforma: foi quando me dei conta que realmente não tenho mais roupas nem maquiagens que não me façam me sentir fabulosa. Não tenho mais espaço na estante pra livros que eu não sinta prazer em reler. Não tenho mais CD’s que não me dêem prazer de ouvir. E eu não preciso tê-los mais, porque antes, sabe, antes eu precisava. Eu precisava que meus livros fossem vistos pra pensarem que eu era inteligente, que meus sapatos fossem vistos pra que eu parecesse antenada. Não era pra mim, era pros outros. E agora eu percebo que minha casa e minha vida são pequenos demais pra guardar tralha alheia. Que meu dinheiro é suado demais para ser gasto em objetos para impressionar gente que não ralou pra ganhá-lo. Desapego, passo pra frente, que o que eu tenho e não deveria vá pertencer a quem realmente pertence.

Eliminando esses objetos que eu nunca quis, eu eliminei as pessoas e a vida ficou tão absurdamente mais leve que chega a ser boa como nunca foi. Eu não tenho mais medo de assumir minha religião, meus sentimentos, meus sonhos e vontades. Eu não tenho mais obrigação que eles sejam iguais os das outras pessoas pra que a gente tenha alguma sintonia louca que gere amizade. Amizade brota. Não brotou? Paciência. A sintonia vai rolar, tem sete bilhões de pessoas no mundo e uma hora ela rola.

E hoje, enquanto eu estou aqui ouvindo a música que gosto sem medo do que vão pensar desse perfil, usando a roupa que gosto sem medo do que isso representa, dando atenção aos amigos que me fazem bem sem culpa, gastando meu tempo comigo… Eu fiquei pensando se voltaria no tempo e diria pra Debora de 14 anos “menina, para com essa bobeira, vai se amar!”. E, sabe, eu não diria. Se a Debora de 14 anos não tivesse feito essa caminhada erradíssima tentando agradar quem não valia a pena e querer o que diziam que deveria se querer… O simples prazer de ser eu não seria tão bom.

Talvez fosse legal curtir a adolescência e o começo da juventude sem ter me preocupado tanto. Quer dizer, fui aprender que posso ser eu quando já era adulta, casada, empresária e cheia de contas. Não sobrou muito tempo pra despirocar. Mas sabe do que mais? Eu nem gosto de despirocar tanto assim também. Deixa pra quem gosta. Eu curto ser responsávelzinha e maluquinha nas medidas certas para mim.

Então, fica esse recado: obrigada, dona Debora de 14 anos, por ter feito tanta merda. Sem isso, eu não teria aprendido que era tão mais fácil só ter sido feliz.

Será que eu to sozinha em me sentir assim hoje?

(Como esse post tá tão piegas que poderia ter sido facilmente escrito pela Miley Cyrus – inclusive parece um apanhadão das entrevistas dela no último ano – deixo vocês com uma música da época em que visivelmente a ficha dela caiu)

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2 pensamentos sobre “Sobre assumir seu estilo, seus livros e seus discos na estante

  1. Lendo esse texto fiquei me lembrando das entrevistas de mulheres de 30 anos dizendo serem mais felizes nessa idade, e tenho certeza de que isso se deve à essa autoaceitação e, principalmente, ao sentimento de “f***-se” pros outros. Eu ainda não cheguei totalmente lá, mas hj em dia já me aceito muito mais e minha vida também ficou muito melhor!!!

  2. Debs, tive o privilégio de conviver com você durante um período desse relato, e posso dizer que você sempre me pareceu uma pessoa que estava tentando acertar, por mais destrambelhada que fosse. Não pra conseguir aprovação, mas pra achar seu lugar no mundo. Sou grata por ter mudado muitas coisas dentro de mim também, acho que isso é a tal da evolução… E vamos mudando, refletindo, abrindo os olhos!

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