O que é ser mulher

Tem um dia na nossa vida que a gente pergunta pra mãe qual a diferença entre ser mulher e ser homem. Mamãe diz que é que menino tem piu-piu e menina tem pombinha. Mamãe mentiu. Isso é só uma diferença biológica, isso nem é tão importante assim e pode ser que um dia você chegue a conclusão que tendo piu-piu se sente mulher e tendo pombinha se sente homem. E não tem problema.

A gente tá meio longe, mas o dia 08 de março vai chegar. Vai chegar com todas as suas baboseiras. Algum idiota vai postar um parabéns por ser mulher, dizendo que você é mãe, profissional, dona de casa, amiga, esposa, cacete aquático de rodinha multitarefa e que merece parabéns. E daí ele vai te dar um bombom ou uma flor. E você vai se sentir ingrata e mal educada se não fizer cara de feliz. Isso é um pouco mais próximo do que é ser mulher. Mas eu vou contar pra vocês algumas vezes que eu fui mulher na vida.

– Todas as vezes em que meu marido fez uma cagada e algum familiar me aconselhou a não ficar brava porque isso poderia diminuí-lo, eu estava sendo mulher. Eu estava sendo mulher porque quando eu faço cagada eu preciso assumir. Porque se eu fosse homem eu poderia fazer o que quisesse – a maior preocupação da sociedade com um homem é em não desmasculinizá-lo (pode dar caca, ele pode ficar nervoso e ir embora e sendo solteira aí de mim).

– Todas as vezes em que meu pai me deu uma bronca sobre minha roupa quando eu era adolescente ou me mandou fechar a perna aos cinco anos de idade porque algum psicopata poderia interpretar errado o fato de uma calcinha de cinco anos de idade estar sendo exibida. Se eu fosse homem, poderia sentar até do avesso. Meu pinto ia ser orgulho. Mas como sou mulher, tenho postura certa pra tentar evitar ataques (que não evitam merda alguma).

– Uma vez eu estava numa balada e um cara tentou me agarrar a força. Eu entrei em desespero e instintivamente procurei meu namorado, que não estava a vista. Eu tenho certeza que ele não estava sendo agarrado a força, porque é homem. Este é um presente reservado às mulheres. Eu também fui mulher porque tive que convencer o idiota que não era legal me agarrar. Eu tive que convence-lo que eu não queria. Dizer “eu não quero” nunca foi o suficiente.

– Eu fui mulher um dia em que me assaltaram e eu não reagi porque me ameaçaram levar mais do que dinheiro. Homem só tem dinheiro. A gente tem honra. É um privilégio feminino ficar aliviada quando só te levam o celular.

– Um dia eu fui mulher quando trabalhei numa empresa de tecnologia e, toda vez que comentava isso, ouvia “nossa, que diferente, mas você entende disso?”. Fui mulher também porque meu supervisor conversava comigo como se eu tivesse necessidade de auxílio especial e sempre terminava falando “as meninas geralmente tem mais dificuldade mesmo”.

– Eu fui mulher quando uma chefe mulher me deu uma bronca por conversar demais no trabalho e disse “é por causa disso que eu não gosto de contratar mulher, vocês não calam a boca e não tem seriedade”.

– Eu fui mulher assistindo a outra mulher quando um chefe aconselhou uma colega de trabalho, ~meio na brincadeira, a ir a uma reunião de decote pra agradar o cliente. Nunca pediram pros meninos irem sem camisa, engraçado.

– Eu já era mulher quando era criança e tinha muita dificuldade em me conectar com meu pai por ser mulher. Isso porque existia um objeto sagrado em casa chamado videogame que, por algum motivo, não era pra mim. Meu pai pedia pra eu sair do quarto quando ele jogava com meu irmão porque eles iam falar palavrão (meus ouvidos, vocês sabem, podiam derreter ao ouvir palavrão pois eu era me-ni-na). Eu nunca aprendi a jogar videogame direito porque não tinha com quem jogar – eles não jogavam comigo porque eu era café com leite. E eu sempre gostei de videogame, mas nunca fui convidada pro clube do Bolinha. E aí eu fui mulher porque, pela primeira vez, me senti burra o suficiente pra não fazer parte de um clubinho especial.

– Eu sou mulher toda vez que numa roda de amigos os meninos fazem piadas sobre gastar muito em sapatos ou em bolsas e em como é difícil ser um homem e sustentar tudo isso. E aí eu olho em volta e vejo que todos são casados com mulheres que trabalham fora.  E eu também sou uma mulher sendo cobrada quando esse mesmo grupo acha engraçado, logo em seguida, rir da baranga que não se cuida. A mensagem é clara: não fique assim, você me incomoda se for feia.

– Aqui em casa temos uma moto (do Malk) e um carro (meu). Ambos são igualmente dos dois, mas eu não tenho carteira de moto então fica definido que o carro é primeiramente meu. Mesmo assim, mesmo que eu chegue de carro sozinha e pilote sozinha e encha o tanque sozinha e leve para revisão sozinha, sou mulher. Então sempre que as pessoas vão dar um conselho sobre peças mecânicas ou uso de gasolina, olham para o meu marido e falam “faça assim ou assado” porque eu não devo saber dessas coisas. E é óbvio que eu nunca vou saber porque não me ensinam.

– Eu sou mulher também porque sempre que alguém precisa de veículo emprestado pedem a ele (exceto minha melhor amiga que nasceu com a capacidade de não ser babaca). Eu sou mulher quando não tenho direito sobre minhas propriedades tanto quanto meu marido. Uma vez me disseram que só iam usar o meu carro se meu marido deixasse, porque era uma questão de respeito.

– Eu sou mulher quando me falam que eu deveria ficar aliviada que meu marido é bancário e esquecem que eu sou dona de uma agência aos 26 anos e trabalho pra caralho pra pagar as contas junto com ele e que qualquer um de nós conseguiria segurar as pontas caso o outro perdesse o emprego.

– Eu sou mulher quando, em todos os restaurantes, os garçons não me dão bom dia, não me entregam o cardápio primeiro, não me entregam a conta e, como o cartão está sempre comigo, eu tenho que puxar da mão do marido. Mas deixam eu escolher onde sentar porque sou frágil.

– Eu sou mulher quando meu marido que tem colesterol alto pede um prato light e eu, que odeio prato light, peço um X-Bacon. Sempre vem trocado. Eu deveria estar de dieta, eu deveria estar não sentindo prazer em comer mesmo quando saio exclusivamente para buscar prazer em comer. Meu serviço é ser olhada.

– Eu sou mulher quando preciso me questionar se uma saia está muito curta, se um vestido está muito decotado e o que isso quer dizer, mas se cobro alinhamento do meu marido escuto “aff, que frescura, é só um almoço de fim de semana”.

– Eu sou mulher quando não posso me sentar confortavelmente porque isso não é coisa de mocinha.

– Eu sou mulher quando tenho mil jobs pra fazer e aguento gente escrota me falando que seria bom eu parar de trabalhar no máximo às cinco pra esperar ele com a janta pronta.

– Eu sou mulher quando escuto conselhos sobre trabalhar arrumada mesmo que em casa, não esquecer a depilação e as unhas e não descuidar só porque casei porque a chama pode apagar. Nunca vi alguém dizer qualquer coisa equivalente ao meu marido.

– Eu sou mulher quando ganho um Chronus de presente de 25 anos de idade.

– Eu sou mulher quando o fato de eu não saber cozinhar é uma piada associada com “coitado do marido dela”. Porque aparentemente eu tenho obrigação de nutrir o próximo, é algo associado à vagina, parece.

– Eu sou mulher quando escuto pelo menos três vezes por mês “o que você vai fazer com a agência se o Malk for transferido?”, embora o Malk nunca escute “como você vai recusar quando for transferido?”. Supostamente, quem larga o emprego sou eu. Não, não é porque o dele é mais seguro. As colegas dele sempre escutem coisas do tipo “você vai largar o emprego quando engravidar?” então, aparentemente, ser bancário não é tão importante assim.

– E eu sou mulher porque eu sinto medo. Eu sinto medo de sair de casa, eu sinto medo de existir. E esse medo está tão internalizado que é comum. E é tão comum que é esperado. E é tão esperado que é como se não existisse. E embora você saiba que todas nós mulheres temos lugares onde não podemos andar, horários em que não podemos sair, que não somos livres, que nos sentimos perdedoras se não casamos, que suportamos tanto, tanto, tanto… se você fala nisso é fresca. Se você fala que sente esse peso, é feminista louca. Esperam que você sinta, não que reclame.

– E eu sou mulher porque o mundo nunca foi desenhado pra mim. E eu deveria supostamente gostar disso.

Então não confundam as coisas. Eu sou mulher e tenho orgulho. Muito orgulho. Muito mesmo. Mas eu não sinto felicidade por isso. Ser feliz por ser mulher é ser feliz por ter nascido com um desafio a mais, por jogar no nível hard o tempo todo. Não, eu não quero ser homem, mas eu não quero jogar no nível hard enquanto tem gente que joga no easy a vida toda. Não é justo.

Então, meu amigo, faz assim olha: lava a loucinha da pia sem sua esposa pedir. Para de fazer piada escrota sobre comprar sapatos. Para de ser babaca. Isso sim é um presente. Porque se no dia oito de março você me vier com flor e bombom e “Parabéns”… “Parabéns por aguentar essa merda que eu te faço passar, você é uma guerreira por se submeter a mim”? Amigo, enfia o bombom no cu.

Obrigada.

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Um pensamento sobre “O que é ser mulher

  1. Esse texto não é bom, é excelente. Gostaria de discordar de alguns itens, mas não posso. Talvez até tivesse outros para acrescentar. Tenho um filho e uma filha e me esforço todo santo dia para que no futuro, ao menos estes dois seres humanos, ajam de outra maneira.

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